Ocupação anticapitalista, autônoma e horizontal localizada em Belo Horizonte
#1- Relatos da Gira Sudaka: Chile, parte 1.
#1- Relatos da Gira Sudaka: Chile, parte 1.

#1- Relatos da Gira Sudaka: Chile, parte 1.

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Aterrisagem

Chegamos no aeroporto de Santiago para os primeiros eventos da nossa Gira Sudaka e nossos amigos locais já estavam esperando. O plano é chegar e começar a turnê na capital chilena, onde os livros foram impressos com a grande ajuda de nossos camaradas da editora Pensamiento y Batalla, que revisaram e editaram a versão em espanhol, traduzida coletivamente por compas de 3 países. 

Fomos direto para a casa dos familiares de nossos anfitriões que vivem próximo da região do aeroporto, pois chegamos perto da meia noite e não há transporte público para regiões mais centrais, táxis são muito caros e carros de aplicativo são ilegais no aeroporto. O pai de nosso anfitrião nos recebeu com coca-cola e rum e contou muitas histórias de família, viagens, greves sindicais e de sua horta que tinha uma linda oliveira, hoje cortada depois que ele sofreu uma queda. Na manhã seguinte, tomamos café com sua esposa que também compartilhou histórias de viagens, desejos de conhecer as praias do Brasil e sua repulsa às mídias sociais e dependência de telas (como as que podíamos ouvir ligadas de dentro quarto de seu companheiro). Cedo na manhã seguinte, saímos para pegar metrô numa das estações que foram incendiadas com o trem dentro nos protestos de 2019 e, ao virar a primeira rua, tivemos nossa primeira vista da Cordilheira dos Andes. Pausa para fotos de turistas deslumbrados.

Tomamos café na sede do sindicato onde nosso amigo editor trabalha. Rapidamente, uma companheira montou uma mesa no meio do escritório e compartilharam conosco pão, guacamole e chá. Deixamos nossos adesivos para marcar o território já tomado por uma ecologia de posters sindicais, adesivos marxistas, insurrecionais e de libertação animal. Lá também pegamos as caixas de cópias do livro Casa Encantada e ganhamos uma carona de outro membro do sindicato que nos levou até a casa onde finalmente vamos ficar. Foi uma grande ajuda para chegar sem sofrer no metrô e poder ver a cidade. É simplesmente incrível poder ver a Cordilheira de todos os cantos e bairros. 

Deixando as malas e livros, fomos caminhar e explorar a cidade enquanto nossos amigos resolviam suas coisas. Fomos avisados para estar atentos aos pertences, pois Santiago é a capital e pólo exportador de pickpockets para a Europa. “A maioria daquelas pessoas em vídeos roubando turistas na Europa vieram do Chile”, disse nosso amigo rindo. Mal sabíamos o que esse detalhe voltaria a nossa memória em breve…

Passamos pela Plaza Dignidad, ponto de encontro das manifestações, onde foram feitas as imagens icônicas dos protestos, com as pessoas escalando monumentos, com bandeira Mapuche e muitas outras, com o horizonte em chamas. A praça está sendo totalmente desconfigurada pela esquerda institucional liderada pelo presidente Boric, que busca apagar materialmente toda essa história recente de luta radical, anticapitalista, indígena e revolucionária. Além de promover prisões e militarização no território Mapuche de forma ainda mais contundentes que seu antecessor Piñera.

Almoçamos em um restaurante vegano na praça em obras e fomos subir o monte Cerro San Cristóbal, o ponto mais alto dentro da cidade — que é incrivelmente plana. De lá podemos notar que Santiago não é apenas margeada pela Cordilheira dos Andes do lado leste, mas sim rodeada também pela Cordilheira da Costa, como um grande anfiteatro natural — ou “el cenicero” como disse nossa amiga local. O que deixa o ar um pouco preso e uma nuvem de fuligem pairando. Ao chegar no cume, era possível ver o topo de todos arranha-céus e que estávamos presos entre a altura das nuvens acima de nós e a camada turva de ar que pairava sobre a cidade logo abaixo.

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No dia de nossa primeira apresentação da gira, caminhamos com nossos compas pelo bairro Lo Hermida, conhecendo sobre sua tradição popular de ocupação autônoma e autoconstrução, como a maior parte das favelas brasileiras. Existe uma tradição local de homenagear pessoas mortas ou desaparecidas na época da ditadura de Pinochet com altares e pequenos monumentos, tão bem cuidados como túmulos oficiais. Passamos por avenidas como El Valle, onde terminam muitas manifestações em confronto com o bloqueio policial, e Avenida Grecia, que foi bloqueada com ônibus transformados em barricadas nos últimos protestos.

Vimos muitos grafites políticos, em homenagem a anarquistas na prisão e mártires da repressão estatal ao povo Mapuche e movimentos sociais diversos. Destaque para um outdoor tomado por uma faixa em memória de Luísa Toledo e aos presos de 6 de Julho..

 faixa em memória de Luísa Toledo e da juventude combatente
Outdoor tomado por uma grande faixa em memória de Luísa Toledo e aos presos de 6 de Julho.

Tiramos algumas fotos desses locais históricos e dos grafites, deixando nossa contribuição com adesivos, mas sempre sob orientação de nossos anfitriões de quando e onde é possível tirar fotos sem ter problemas com funcionários do varejo de entorpecentes local — orientação que já vem no pacote de qualquer cidade latina. E até encontramos um brasileiro que reconheceu nossa fala e contou que participou de ocupações de terra na região e prometeu comparecer ao lançamento.

Chegamos no Centro Social Lo Hermida para nossa apresentação organizada em conjunto com a Biblioteca Popular Lo Hermida e La Eskuela Popular Lo Hermida. O terreno foi uma antiga fazenda nos limites da cidade e hoje é um grande território ocupado e cuidado por diferentes grupos organizados na vizinhança. Não falamos no espaço da biblioteca em si porque estava rolando um encontro de skate no espaço e ficaria muito cheio. Então a atividade foi para uma salinha muito aconchegante perto de uma das entradas chamada pelos locais de Barracón. Falamos para cerca de vinte pessoas, maioria militantes do bairro e de outras ocupações e movimentos. Foi um debate muito interessante e com muitas perguntas sobre organização, perspectivas, esperança, relação com a comunidade e radicalidade. 

Voltando para o bairro onde nos hospedamos, precisamos pegar um carro de aplicativo para facilitar o translado com as malas de materiais da nossa banquinha. Ao que parece, um carro nos seguia, provavelmente, desde a saída do evento, e parou atrás de nós quando descemos com tudo do carro para comprar suco em uma loja na esquina anterior. O carro manobrou e voltou pela rua e parou logo ao nosso lado. Saíram do carro sem identificação uma moça jovem muito bem vestida e um outro rapaz de roupas civis, jeans rasgado e touca. A moça, sem desfazer o sorriso nem por um segundo, seguiu dando boa noite várias vezes ao sair do banco do carona. Apenas olhamos e acenamos com a cabeça, seguindo nosso caminho pensando que ela estava se dirigindo a outras pessoas que passam por nós ou alguém dentro de um dos imóveis pelos quais passávamos. Foi só quando o homem deu a volta por trás e vimos sua arma na cintura, que entendemos que a moça sorridente estava falando mesmo conosco e já mostrava um distintivo da PDI, a polícia federal chilena. Pediram apenas documentos, tiraram fotos, perguntaram o que estamos fazendo, onde iríamos. Algo nada típico de acontecer ali no bairro, muito menos com os federais fazendo esse tipo de controle, segundo nossos anfitriões. Ficamos mais atentos para os próximos eventos, mas com aquela sensação de absolutamente qualquer pessoa ou carro pode ser um policial caçando alguma coisa contra nós ou os espaços que nos recebem. 

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Um passeio pelas memórias

No dia 31, aproveitamos o dia livre para caminhar pela cidade com nosso amigo local guiando o passeio por locais históricos de luta. Fomos ao bairro Villa Francia, famoso por ser um dos bairros populares onde começam marchas e manifestações como as do Primeiro de Maio e o Dia da Juventud Combatiente, todo 29 de Março. A data é uma memória dos irmãos Vergara, ligados ao movimento armado MIR, que foram executados pela polícia numa esquina do bairro vizinho à Villa Francia um outro militante que foi assassinado em uma operação que forjou um atentado a bomba. Visitamos o ponto exato da execução dos Vergara, onde há um memorial em sua homenagem, e de onde parte o início de toda marcha do 29M, que se concentra ali e encontra outros blocos para formar uma grande multidão em protestos radicalizados que terminam em confrontos gigantescos. Nosso guia mostrou pontos como uma concessionária de carros que foi saqueada e queimada, e nunca mais reconstruída. Assim como um posto de gasolina que teve sua loja de conveniência saqueada e queimada, além dos tanques de gasolina esvaziados para produção de coquetéis molotov. Assim como a concessionária, os donos do posto apenas desistiram de reconstruir o estabelecimento. 

Ainda pela Villa Francia, passamos na porta do Comedor Popular Luisa Toledo, organizado dentro do Espacio Comunitario Pablo Vergara Toledo, um galpão e jardim, parte de uma antiga junta de vecinos que foi ocupada por vários movimentos e produz coletivamente almoços comunitários e recebe diversas atividades, mantendo viva a memória de Toledo e sua famílias, através da luta social e da solidariedade.

Visitamos também alguns dos principais murais de todo tipo, sempre em homenagem à memória de lutas sociais, militantes presos, mortos e desaparecidos da ditadura militar e da democracia, povos Mapuche e outros originários. Isso é um fator importante para manter uma memória viva, não apenas como culto ao passado, mas como combustível para a luta no presente. Que educa as novas gerações sobre o que veio antes, e capacita para as lutas de agora e do por vir. 

Algo difícil de se compreender num país e cidade como a nossa, onde as marchas de Primeiro de Maio ou de pautas específicas, caminham 5 quarteirões de uma praça vazia a outra, sem causar nenhum desconforto à ordem e à circulação da mercadoria, onde a pacificação é a palavra de ordem e a juventude pouco tem pelo que se interessar vendo um ritual vazio, protocolar e estéril. A memória e o presente se apresentam nas ruas como cansados e domesticados, e quem se levanta “faz o jogo da direita” — como é repetido pela esquerda institucional desde as revoltas populares de 2013 e 2014. 

Nas ruas chilenas, vimos uma memória viva, em que o passado não é um monumento ao que já foi, mas combustivel pelo que está aqui e o que virá da lutas sociais, que permeiam todas as idades, bairros e povos.  

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