Ocupação anticapitalista, autônoma e horizontal localizada em Belo Horizonte
Casa Tina Martins Resiste! – Entrevista com a coordenação estadual do Movimento de Mulheres Olga Benário
Casa Tina Martins Resiste! – Entrevista com a coordenação estadual do Movimento de Mulheres Olga Benário

Casa Tina Martins Resiste! – Entrevista com a coordenação estadual do Movimento de Mulheres Olga Benário

A entrevista abaixo é parte do livro “Casa Encantada: Um Retrato da Luta pela Moradia em Belo Horizonte“, de Renato Baruq, publicado em 2024 pela GLAC Edições. Para o livro, que conta também com prefácio de Thiago Canettieri, artigo de Clarissa Campos e fotografias de Cadu Passos, foram colhidas entrevistas com moradoras e moradoras de casas ocupadas em BH, mas também com coletivos e militantes, como esta entrevista com membros da coordenação estadual do Movimento de Mulheres Olga Benário.

No primeiro dia de julho de 2025, o movimento anunciou que o imóvel ocupado há quase 10 anos pela Casa de Referência da Mulher Tina Martins, na rua Rua Paraíba, 641, bairro Santa Efigênia está entre os imóveis públicos que o governo ultraliberal de Romeu Zema (NOVO) pretende colocar à venda para pagar as dívidas de sua má gestão estadual, da mesma forma que tenta fazer com a UEMG – Universidade Estadual do Estado de Minas Gerais e outros bens públicos.

Contra isso, o movimento Olga Benário chama todas as pessoas, toda a cidade, movimentos sociais, partidos e aliados a se somarem em uma grande plenária em solidariedade a Ocupação Tina Martins, nessa quinta, dia 03/07, às 19h na Tina Martins endereçado na Rua Paraíba, 641.

Leia, divulgue e veja como apoiar os movimentos contra o pacotão de privatização do governo Zema junto ao PROPAG!

Entrevista com a coordenação estadual do Movimento de Mulheres Olga Benário

A Casa Tina Martins é considerada a primeira ocupação organizada de e para mulheres em toda a América Latina. Atualmente, está sediada na Rua Paraíba, ao lado da Escola de Arquitetura da UFMG. No entanto, seu primeiro endereço foi um imóvel ocupado em 2016 pelo Movimento Olga Benário, na Rua Guaicurus, região do Centro que reúne diversas profissionais do sexo trabalhando em diversos motéis e prostíbulos. A proposta do espaço era partir da ação direta para abordar, ao mesmo tempo, a questão da propriedade privada, da violência contra a mulher e a invisibilidade de mulheres, pessoas trans e profissionais do sexo. O nome do espaço é uma homenagem à Espertirina Martins, uma militante anarquista do início do século XX que chegou a estudar numa Escola Moderna local, inspirada nos trabalhos do catalão Francisco Ferrer y Guardia, e se tornou célebre por sua explosiva participação nas greves de 1917 em Porto Alegre. Na ocasião, Espertirina participou do velório e protesto contra a morte de um operário durante a greve e escondeu uma bomba em um buquê de flores. Sua aparência inofensiva permitiu que atirasse o buquê explosivo contra a Brigada Militar que se aproximava, matando vários oficiais. Como resultado, a greve saiu vitoriosa em conseguir diminuir as jornadas de trabalho para 8 horas diárias, acabar com o trabalho infantil e obter direitos de aposentadoria e seguridade.

1 – O que é a Casa Tina Martins, e como e quando ela surgiu? Qual a relação dela com os movimentos de ocupação para moradia e com a luta das mulheres em Belo Horizonte?

A Casa Tina Martins surgiu no 8 de Março de 2016, organizada pelo Movimento de Mulheres Olga Benário e pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB). A ocupação surge de demandas discutidas no movimento feminista e no de moradia sobre a ineficiência das políticas públicas de combate à violência contra a mulher, tendo a consciência do papel essencial de uma estrutura que possibilite a vida digna.

A partir de experiências de organização em ocupações urbanas, cujas habitantes e lideranças são, em sua maioria, mulheres, o Movimento Olga Benário e o MLB idealizaram uma ocupação simbólica de um edifício abandonado pelo governo federal. O plano inicial era ficar cerca de três dias, para reivindicar o atendimento 24/7 da Delegacia da Mulher e denunciar a quantidade de imóveis abandonados no baixo centro da cidade. Três dias tornaram-se três meses, e tivemos a percepção de que deveríamos continuar e melhorar o trabalho. A Tina Martins realizou atendimentos e acolhimentos desde as primeiras horas de surgimento. Ao final desse tempo, quando chegou a ordem de despejo, o movimento insistiu em negociações com os governos federal e estadual, e foi transferido da esquina da Espírito Santo com a Guaicurus para a Rua Paraíba.

A partir de então, passa a ser conhecida como Casa Tina Martins e realiza acolhimento de mulheres vítimas de violência, oferecendo atendimento psicológico, jurídico e de assistência social, abrigamento caso seja necessário, formação política e eventos culturais. A coordenação é feita por militantes do Movimento de Mulheres Olga Benário.

2 – O atual imóvel, hoje cedido pela prefeitura, é muito mais estruturado. Você avalia que essa conquista seria atingida tão rapidamente se não fosse pela ação direta, de ocupar, tomar um espaço e promover acolhimento de mulheres vulneráveis, profissionais do sexo e outras?

Nós não teríamos conseguido articular a concessão do imóvel (que é uma casa da FAPEMIG, sem uso por anos antes das negociações com o governo) nem sua manutenção sem a ação direta e a colaboração de outras ocupações e movimentos da cidade. Mesmo com o imóvel cedido, a Casa Tina Martins ainda vive na corda bamba, podendo ser alvo de ordem de despejo (como já foi) a qualquer momento.

3 – Há diversas experiências de casas de acolhimento de mulheres no mundo e com forte tradição dentro da luta da classe trabalhadora (um bom exemplo é o da Itália nos anos 1970). Houve outras iniciativas semelhantes no Brasil ou na América Latina que serviram de inspiração para o surgimento do Espaço Tina Martins?

Estudamos as políticas de acolhimento à mulher no Brasil e em outros países, assim como as iniciativas da classe trabalhadora. Mas as maiores inspirações vieram dos movimentos de luta por moradia, por suas experiências de ocupar imóveis e de organização interna. Observamos que a maior parte das pessoas que constroem esses espaços são mulheres em busca de seus direitos e de dignidade. Um elemento basilar dessa luta é a moradia.

Sobre iniciativas semelhantes, a Casa Tina Martins foi a primeira ocupação de mulheres da América Latina. Atualmente, existem 20 ocupações de mulheres no país, todas realizadas pelo Movimento de Mulheres Olga Benário e mantidas pela dedicação das militantes e por uma rede de solidariedade importante com movimentos sociais.

Em julho de 2023, tivemos a oportunidade de conversar com mulheres de vários países da América Latina sobre suas experiências de luta e incorporamos muitos de seus princípios e experiências, além de apresentar nossa vivência com as ocupações. Nesse sentido, recebemos bastante material e conseguimos contribuir um pouco. As lutas das mulheres indígenas andinas e amazônicas e do movimento negro latino-americano e caribenho, as mobilizações pelo aborto seguro, legal e gratuito e a reivindicação de memória, verdade e justiça, para citar alguns exemplos, inspiram a atuação e os princípios do movimento e a organização das casas.

4 – Como surgiu a ideia de homenagear a lutadora radical Espertirina Martins, ativa no início do século XX nos movimentos operários, socialistas e anarquistas brasileiros?
Pensamos que a ocupação deveria ser algo como o famoso buquê molotov de Espertirina. E também que seria importante destacar a história das lutas operárias no Brasil, que são referências e horizontes futuros para a derrubada do capitalismo. A ocupação não existiria se não tivéssemos essa perspectiva.

5 – Recentemente vimos o surgimento de mais uma ocupação, Ednéia Ribeiro, voltada para atenção às mulheres no bairro União, em Belo Horizonte. Qual a perspectiva de luta e ação para os próximos anos e para a causa dos direitos das mulheres e de ocupações?

Nos próximos anos, continuaremos acolhendo mulheres, reivindicando políticas públicas efetivamente comprometidas com o fim da violência contra a mulher e denunciando a quantidade de imóveis abandonados em Belo Horizonte. O lugar em que a ocupação Ednéia Ribeiro está era para ser a construção da Casa da Mulher Brasileira, que não tem previsão de sair do papel.

A ocupação homenageia uma companheira do MLB e do Olga, mãe solo e moradora de ocupação, vítima de feminicídio. Ao reivindicarmos o local em que deveria ser a Casa Abrigo para mulheres em situação de violência poderem se reestruturar, mostramos que há descaso. No estado que mais mata mulheres no Brasil, a perspectiva das políticas públicas não é animadora. Por isso, seguiremos ocupando, acolhendo e cobrando. E mostrando que, se um grupo de mulheres com ideais anticapitalistas e com orçamento dependente da solidariedade entre movimentos sociais consegue se articular para isso, uma política com recursos também deveria fazê-lo; não o faz por beneficiar-se desse cenário.

Para ler mais:

Comunidade acadêmica repudia federalização da Uemg

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *