
A travessia
Após despertar com o sol nascendo multicolorido em Valparaíso, tomamos o ônibus para o trecho mais imponente da turnê, atravessando a imensidão branca da Cordilheira dos Andes e suas sinuosas carreteras. Em um ônibus não muito velho, mas com um piso que imita chão de taco, como os que vemos nas casas antigas ocupadas, seguimos para as supostas 9 horas que o trajeto demandava. Estávamos equipados com nossos fones, livros e lanchinhos para aguentar essa viagem que prometia não ser maior do que ir de BH para SP. Quanta inocência! Por sorte, as estradas foram abertas para quem cruza a fronteira entre Chile e Argentina bem naquele dia. As fortes tempestades de neve e o alto índice de umidade do ar dos primeiros dias de agosto obrigaram muitos motoristas a esperar um ou mais dias para fazer a travessia e a estrada estava repleta de caminhões de carga, ônibus e carros de passeio com famílias indo turistar e o ritmo já se mostrava lento.
Logo nos impressionamos com as paisagens nada familiares para nós. Cactos e rochas que lembram um clima desértico em meio a morros rochosos e muita neve. Ao fundo, a paisagem ia cedendo espaço para picos cada vez mais altos na medida em que nos aproximávamos da Cordilheira de fato. Não demorou para perceber que as montanhas também tem suas cores e não é apenas rocha cinzenta e neve branca. O solo atirado para cima ao longo de milênios tem tons de vermelho, verde, roxo, marrom, permeando vegetações que vão raleando e perdendo o verde conforme subimos e somos mais cercados pela neve. A estrada serpenteia pelas montanhas e, quando ficamos parados numa parte mais baixa e olhamos para cima, era possível ver os diferentes sentidos com filas de caminhões, uns indo para a esquerda e outros para a direita, e muitos muros de contenção com grafites e pichações. O céu estava cinza e às vezes azul, mas quase não vimos mais o sol. Definitivamente a experiência de cruzar os Andes de ônibus já compensou um pouco a frustração de termos chegado em Santiago voando quando ainda era madrugada, impedindo ver tudo isso de cima.
O conceito de “parada para lanchar e ir ao banheiro”, mesmo que em pontos monopolizados e superfaturados, parece ser um conceito brasileiro. Nossa única parada nessa viagem – que já dava sinal de que iriam se estender – foi no Control Integrado Fronterizo Los Horcones, serviço aduaneiro na fronteira do Chile com a Argentina, e nossos biscoitos, castanhas e até a água já estavam acabando. E o procedimento ali é sair do ônibus com as malas de mão, esperar que tirem todas as bagagens para passar pelo raio-x, esperar na fila para falar na cabine com a PDI (eles de novo!) e passar também por detectores de metal e inspeção, para enfim responder sobre qualquer coisa que encrencarem com sua mala. Tudo isso levou quase um par de horas e esperamos do lado de fora da Aduaneira, que mais parece uma rodoviária precária, admirando a paisagem estonteante e tirando fotos em meio a vários ônibus parados, pessoas esticando as pernas, vira-latas-das neves – que nos faz questionar como diabos esses caramelos foram para ali, qual sua história, o que comem, como se reproduzem, tomam ou não mate? Para alguns de nós era a primeira vez vendo neve e obviamente logo começamos uma breve batalha de bolas de neve, interrompidas assim que nos lembramos que: 1, neve derrete e nossa roupa ia ficar molhada; 2, quanto mais calorias gastamos nessa diversão única, mais fome sentiremos em breve. Foi necessário economizar na diversão.





Estávamos especialmente apreensivos com essa travessia porque, apesar de termos entrado de forma tranquila via aérea em Santiago, as fronteiras chilenas e a PDI, os federais, são muito atentos a mensagens políticas, especialmente ligadas a movimentos de ocupação, anarquismo, luta mapuche, comunismo, etc. Ouvimos vários relatos e conselhos de pessoas que foram mandadas de volta para onde estavam indo, impedidas de entrar ou deportadas para seu país por ter livros ou jornais em sua bagagem, sob a acusação de serem “falsos turistas” ou incriminados com alguma outra coisa absurda. Lembrando que movimentos anticapitalistas e indígenas são alguns dos principais inimigos públicos. Atualmente, em território dominado pelo estado argentino, não é muito diferente. Depois de uma longa espera, inspeção nas malas, desembolamos em portunhol um motivo para ter centenas de posters, camisetas, livros e adesivos iguais viajando como turistas, escondendo as imagens mais subversivas e incriminatórias, inclusive, vários jornais que recebemos em Santiago de alguns compas que nos deram a tarefa de espalhar alguns jornais por onde passaríamos a partir de lá. Conseguimos atravessar e entrar no ônibus novamente do outro lado. Quando estava para partir, percebemos que desse outro lado havia três quiosques super toscos perto da porta da Aduana e fomos correndo pedindo para o motorista esperar, pulando de loja em loja, saltando e pisando em poças de lama com neve derretida (de perto tudo perde o charme). Mesmo custando quase 50 reais por chips e refri, estávamos dispostos a pagar devido ao desespero. Mas nenhum aceitava o dinheiro que tínhamos e nenhum de nossos cartões e seguimos por mais uma tarde inteira comendo até os farelos do pouco que tínhamos. Alimentamos a mente e a alma com a paisagem para esquecer a falta de glicose no sangue e superar o fato de que agora sentíamos falta de um Graal nos extorquindo em troca de um lanchinho.
Mendoza – do outro lado da Cordilheira
Chegamos em Mendoza já de noite e um casal de compas nos recebeu para tomar os ônibus para o terreno da Huerta la Resistência, no Barrio Espenillo. Logo na primeira condução percebemos que em todas as ruas havia uma vala de quase um metro de largura e pelo menos meio metro de profundidade separando o asfalto da calçada. Era tão grande que dava a impressão de que todo quarteirão era um mini castelo medieval cercado por um mini fosso. Em vez de rampa, toda garagem tinha uma ponte de concreto com a largura para passar um carro. Sem grade, sem barreiras, apenas um meio fio pintado de amarelo extra para evitar que veículos escorreguem para dentro. Impossível não pensar quantos idosos devem ser hospitalizados por ano caindo naquilo. Nossos amigos explicaram que são as acéquias e que desde crianças todas as pessoas de Mendoza aprendem a andar saltando elas. As acéquias são uma tecnologia indígena de origem Inca que serve para distribuir as águas das pouquíssimas chuvas e do degelo da Cordilheira para irrigar as árvores urbanas e garantir um conforto climático já que o clima é desértico e nenhuma das árvores maiores da cidade são nativas da região.
A previsão para o segundo ônibus era de muita demora e decidiram chamar uma companheira do território para nos buscar de carro. Depois de um tempo esperando numa estradinha já saindo da parte urbana, chegou nossa carona em um carro que trazia consigo toda uma história de resistência e adversidades argentinas, atravessando o fim da ditadura militar, redemocratização, crises e quedas de presidentes, se mantendo firme e guerreiro. Já éramos 5 esperando com malas de livros e papéis pesados, fomos em 6 para mais um desafio desse guerreiro das pistas se aventurando em uma estradinha de terra. Chegamos a Espinillo, no limite sul do município, onde passaríamos a noite para, no dia seguinte, fazer nossa apresentação na Biblioteca Popular Jesús Nazareno, em um bairro em Mendoza.



Deixamos nossas coisas em uma casinha de bioconstrução onde iríamos passar a noite e seguimos no terreno, caminhando e vendo o que era possível com a luz da lua e algumas lanternas. Parece que tudo o que não era Cordilheira era uma planície infinita, entre vinhedos, amendoeiras e outras plantações. Caminhamos no escuro rumo à luz de uma fogueira ao longe onde nossos anfitriões nos esperavam cozinhando um caldeirão de sopa e com vinho. O cenário era ao mesmo tempo acolhedor e distópico, onde camaradas organizam uma retomada são incrivelmente hospitaleiros com muito pouco recurso, falta de água e todos os desafios que vem com lutas por terra fora dos centros urbanos. Ficamos por horas conversando ao redor do fogo, compartilhando comida e vinho em algumas poucas tigelas e canecas. Havia gente de diferentes regiões e países, muitos já visitaram o Brasil, conversamos muito sobre as lutas da comunidade e das experiências de cada um.
Nos explicaram que Barrio Espinillo existe desde 2015 como uma ideia de ocupar a terra, promover uma autonomia alimentar, praticar bioconstrução e a autogestão. A Huerta La Resistencia foi ocupada em meio à pandemia, em 2021, para aumentar a capacidade de produção de alimentos para as 24 famílias que lá estão, com cerca de 20 crianças. Apesar de ser famosa pela produção agrícola que exporta vinho da uva malbec, pêssego, ameixas e muito mais, a região é mais seca que partes do sertão brasileiro. Por conta da altura da cordilheira, a umidade que vem do Pacífico se transforma em neve no topo da cadeia montanhosa, deixando o lado argentino extremamente árido, só chove por cerca de 30 dias e a seca típica do bioma é acentuada pela privatização da água, um tema que vimos em muitos cartazes e pixos na região, e quem tem se acentuado nos últimos meses. O abastecimento na comunidade é feito com caminhões-pipa que visitam o território e enchem tanques que duram alguns dias. Não há rede de esgoto e só existe banheiro seco.




Só tivemos uma dimensão do território na manhã seguinte, quando caminhamos pelo local para conhecer os diferentes cultivos que o pessoal mantém ali, uma cooperativa de produção de vinhos, os vizinhos com lindas casas permaculturais, margeados por um latifúndio de algum francês dono de uma vasta vinícola. Pudemos avistar o lado argentino da Cordilheira e vulcão Tupungato, nos impressionando mais uma vez com a paisagem. Caminhamos cruzando plantações de amêndoas e vinhas ainda sem folhas para cortar caminho até a rodovia onde nos pegaram de carro na noite anterior. E lá tomamos três conduções até a Biblioteca Popular Jesús Nazareno.
Fomos recebidos com um almoço farto em legumes, tudo cozinhado em uma fogueira no quintal – o que nos fez considerar que cozinhar refeições em fogueira era alguma preferência local, mas depois notamos que foi apenas uma coincidência. Mais uma vez, a hospitalidade argentina foi marcante. A Biblioteca fica numa rua calma e é um prédio muito charmoso de um andar, onde há também um jardim de infância comunitário, aulas de idiomas e oficinas de todo tipo. O imóvel foi ocupado e a pressão popular levou políticos locais a cederem o espaço para a comunidade. Sendo uma das salas chamada “Sala Freire” em homenagem ao educador brasileiro Paulo Freire. Nossa fala foi seguida por uma apresentação e debate sobre a questão Palestina e o envolvimento de capital israelense no financiamento dos megaprojetos de privatização e contaminação das águas da região. Caminhamos pelo terreno para saber da história, das disputas que acontecem mesmo ali naquele lote e saber mais sobre as lutas pelo direito de acesso à água.
Nossa companheira mais uma vez apareceu com seu carro guerreiro trazendo nossas bagagens e ao final do evento pegamos carona com um outro casal que participa do espaço, cuja motorista era uma peronista de esquerda que nos explicou as distintas versões do Peronismo na Argentina, que vão do populismo a um suposto “anarco-peronismo”. Situação que, para nós, se torna mais complexa a cada pessoa que fala sobre o peronismo. Na rodoviária juntamos os trocados que tínhamos para comer qualquer coisa numa lanchonete de rede e viajar bem alimentados para o próximo destino.




Córdoba – espólios da crise
Chegamos na rodoviária de Córdoba antes do sol nascer e duas companheiras foram nos buscar de carro. Somente muita solidariedade para acordar tão cedo para ajudar desconhecidos! De Mendoza para Córdoba a paisagem mudou drasticamente, de planícies desérticas, construções espalhadas e pouco fluxo, para um centro urbano moderno, mais verticalizado, lojas chetas e muito trânsito. Chegamos para preparar um café da manhã coletivo no Espacio Cultural San Martin, onde estávamos hospedados e faríamos a apresentação no dia seguinte.
O espaço era uma padaria até 2001, quando a crise econômica que quebrou o país faliu diversos negócios e arruinou famílias e um banco se apossou do imóvel. Após alguns anos fechado, a filha de um dos donos ainda tinha as chaves das portas e organizou um coletivo para ocupar o espaço em 2005, sem arrombar qualquer fechadura ou janela. Nesse mês de agosto de 2025 já estavam para completar 20 anos de existência. O espaço é muito charmoso, em uma esquina de um bairro tranquilo ao norte do centro de Córdoba. Há uma entrada para o que deveria ser a antiga loja da padaria, com uma grande porta bem na esquina, enormes vidraças laterais que deixam ver o que acontece dentro da sala onde acontecem reuniões e apresentações em meio a mesas, cadeiras e prateleiras da biblioteca. Ao fundo, uma porta leva para a rádio comunitária, espaço para shows e apresentações de teatro, estúdio de ensaio musical, uma cozinha, onde devia operar a produção da padaria, e um belo quintal com mesas, poltronas, jardim e espaço para fogueira. A cozinha, muito bem equipada e organizada, serve também para a produção de pelo menos duas cooperativas que comercializam pães, conservas e outras coisas. Por sorte, haviam amostras que sobraram para provarmos!





Ao longo da tarde, demos uma grande volta pela cidade com nossas companheiras locais que nos levaram para ver outras ocupações da cidade, como a Casa Caracol, onde fica a sede da Federación de Organizaciones de Base (FOB) Regional Córdoba, e La Casita, que existe desde 2007 como ocupação autônoma com famílias em situação de vulnerabilidade, bem como as da nossa rede solidária em BH retratadas no livro Casa Encantada. E outras que foram desalojadas como Las Gatas e Las Pulgas.
Percebemos que rádios e bibliotecas são estruturas muito comuns nas ocupas até então. Há também uma preocupação geral com a relação com a pedagogia infantil e comunitária. No San Martin também começou com atividades abertas para o bairro e reforço escolar. Nossa atividade foi bem cheia e o debate foi muito rico e extenso. Encontramos por acaso um companheiro de Buenos Aires que também esteve em Belo Horizonte nos anos 2009 e 2010, testemunhando muito do que abordamos sobre movimentações subterrâneas pré-2013. Foi interessante ter suas perspectivas de fora somadas às nossas.
À noite, era hora de jantar e nos recolher do frio intenso e quase extremo para 3 mineiros muito despreparados para lidar com as adversidades climáticas. Madrugamos antes do sol nascer, e fomos ainda escuro para a rodoviária e partimos para Rosário. No caminho, passamos horas nas estradas em intermináveis linhas retas, entre campos e plantações, poucas árvores e povoados salpicados no horizonte. Ainda dentro da província de Córdoba, que tem o mesmo nome da capital, uma grande placa dizia “Leones: Capital Nacional del Trigo”. Provavelmente eram as plantações de trigo que víamos até perder de vista.
Rosário – resistência, rios e praças
O sol estava intenso, mas o clima ainda era frio quando chegamos em Rosário e nosso anfitrião chegou de bicicleta para nos saudar na rodoviária. Ele é membro da Biblioteca Alberto Ghiraldo e, junto com sua companheira, iriam nos hospedar em sua casa. Chegamos com nossas sofridas malas recheadas com o peso das artes gráficas e sugerimos ir caminhando com ele até sua casa, já que era praticamente na mesma avenida, uns 8 quarteirões adiante. Ao que ele respondeu “vocês não vão querer fazer isso”. Sempre é melhor confiar nos saberes dos aliados locais do que se aventurar com a desvantagem do peso das malas minutos após chegar em terreno desconhecido.




Rosário é uma cidade margeada pelo Rio Paraná, que nasce bem na divisa de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e São Paulo. É o segundo maior da América do Sul e um dos principais da bacia do Rio da Prata e impressiona até mesmo nós 3 que também nascemos em Minas pela sua dimensão. Passeamos por uma grande avenida até chegar numa via que margeia o rio. É uma caminhada muito agradável ao longo de parques, gramados, praças, pistas de skate, arenas, galpões transformados em espaços para eventos, bibliotecas e alguns restaurantes e bares que ficam junto ao porto ou mesmo em barcos flutuando atracados. Chama muito a atenção tanto a dimensão de um rio daquela envergadura junto a uma cidade grande, quanto o quão bem é aproveitado essa orla com esses espaços públicos para a população. Parece que ali é uma das opções preferidas para as pessoas de toda idade ficarem de bobeira, tomando um mate, praticando algum esporte, pedalando ou de skate. Ficamos num misto de admiração e inveja ao lembrar de Belo Horizonte com suas praças sucateadas, arquitetura hostil, parques cercados, rios pavimentados e lagoas cheias de esgoto, dá um pouco de inveja de ver tanta grama e espaço gratuito para se divertir sem precisar estar numa mesa consumindo. Caminhamos pelas ruas e pela orla marcando o território com adesivos e tirando algumas fotos enquanto apreciávamos a diversidade de bicicletas transformadas em estufas móveis para vender empanadas.

Nossa atividade numa quinta-feira na sede da Biblioteca y Archivo Alberto Ghiraldo, um espaço de esquina simpática, que segue um mesmo padrão para estabelecimentos comerciais e entradas de moradia em várias partes da cidade: uma quina cortada com uma pilastra no canto sustentando os andares de cima. Chegamos mais cedo e ajudamos a preparar o espaço, montar mesa para expor materiais e tomar café, mate e ver um pouco do acervo que conta com livros centenários como uma edição linda da obra “El Hombre y La Tierra” de Élisée Reclus, jornal “La Protesta” e vários de Malatesta, Bakunin, Marx.
O projeto está aberto desde os anos 80 e está ali desde 2012 e possui vários materiais históricos da região do Rio da Prata e de vários países. Um trabalho semelhante ao da Biblioteca Terra Livre, de São Paulo, coletivo com quem eles tem grande afinidade e parceria. Mas o coletivo toca também outros projetos interligados com muita produção literária atuais e de notícias. Dentre os projetos estão o jornal gratuito La Oveja Negra, a editora Lazo Ediciones, que lança autores contemporâneos e a Rádio Temperamento. Também publica uma revista temática chamada Cuadernos de Negación, que em cada temporada, lança volumes temáticos, como Estado, mercado e patriarcado. Posteriormente compilam as revistas em um único volume em formato livro. Tudo isso é um grande exemplo para nós de uma forma interessante de manter memória histórica, estudo dos clássicos e produção e debate de temas atuais relevantes para os movimentos radicais.
Nossa apresentação e debate ocorreu ali em torno da mesa principal da sala, e uma cópia do livro Casa Encantada ganhou imediatamente o carimbo do Archivo e entrou oficialmente para o acervo. Ganhamos muitos presentes de nossos camaradas, como cópias dos Cuadernos, periódicos, livros, gravuras e outros materiais para consumo pessoal e coletivizado na Biblioteca da Kasa Invisível.
No dia seguinte, retomamos o batidão rumo a Buenos Aires com aquela vontade de ficar mais e aproveitar a cidade e tanta gente interessante com projetos inspiradores.
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É possível imaginar mais facilmente como é uma vida pós-revolucionária quando passamos semanas como passamos essa, hora num imenso território ocupado comendo junto ao fogo a melhor comida que se tem com o melhor que se pode produzir localmente, hora conversando a tarde inteira em uma pequena escola comunitária, preparando um jantar coletivo em uma cozinha que antes foi apenas mais uma padaria comercial, estudando e nos educando em um acervo clandestino cuidado e ampliado por camaradas cúmplices. A vida que queremos viver antes, durante e depois de um grande evento, como uma revolução social, não é outra coisa senão a reunião de tudo isso que podemos experimentar nessas janelas no tempo e no espaço. Janelas e portas que surgem das fraturas que abrimos a cada barricada, cada ocupação, cada cozinha, cada biblioteca e cada creche comunitária. Estar na estrada compartilhando experiências de uma luta contra o Capital e toda forma de opressão é estar em contato com surpreendentes formas de viver outras vidas, outros mundos soterrados abaixo desse. É uma forma de ampliar as rachaduras para que, como ervas daninhas, retomemos o asfalto e o concreto para o nascimento de outros mundos.






