Ocupação anticapitalista, autônoma e horizontal localizada em Belo Horizonte
#2 – Relatos da Gira Sudaka: Chile, parte 2.
#2 – Relatos da Gira Sudaka: Chile, parte 2.

#2 – Relatos da Gira Sudaka: Chile, parte 2.

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De papapletos a metrochorros

O segundo evento da gira em Santiago foi no espaço La Termita, dia 1 de agosto A palavra significa cupim, provavelmente em homenagem aos antigos ocupantes do imóvel que se recusam a sair totalmente. O espaço é gerido por 3 coletivos que desenvolvem diferentes projetos e compartilham os custos e a manutenção. 

Um deles é um jardim de infância coletivo e autogestionado, aberto para a comunidade próxima, chamado Eskuela Libertaria del Sur. Outro é Archivo Histórico La Revuelta, uma biblioteca e acervo de uma variedade de documentos históricos do anarquismo e das lutas sociais da região. Chegamos ao espaço no fim de tarde e estava sem luz nas ruas do entorno porque algum acidente de trânsito afetou a rede elétrica. No trajeto conhecemos a Escuela de Formación de Gendarmería que seria o alvo das bombas caseiras fabricadas por Punky Mauri que explodiram a caminho da ação em seu próprio corpo, tornando-o um ícone da resistência e ação direta em Santiago. Nos apresentamos e conhecemos os cômodos e os rostos das pessoas com as lanternas de celulares e algumas velas espalhadas pelos cantos. Uma reunião acontecia em uma das salas e no fim do corredor central do imóvel uma mesa foi montada para servir o melhor [e mais barato] cachorro quente vegano de toda a viagem, que em Santiago é conhecido como “completo” — também há a versão vegana de rua improvisada quando não há salsicha vegetal, substituída por batatas fritas, que leva o nome de “papapleto” [ou “tofupleto”, quando a base é de tofu].

Exploramos o acervo do La Revuelta, concentrado em uma salinha pequena, que tem uma porta e uma janela voltadas para o corredor do imóvel, que leva aos distintos ambientes onde cada coletivo tem seu espaço, e também à cozinha e ao salão comum para eventos. Com auxílio das várias lanternas, membros do coletivo nos apresentaram as histórias da coleção de livros, jornais, posters e outros efêmeros bem organizados nas prateleiras, em caixas e emoldurados nas paredes. Haviam chamados para marchas do século XX, zines e revistas mais modernas, coleções de livros super antigos e frágeis, que membros do arquivo apresentavam e contavam sua história para nós e mais uma dezena de visitantes que acompanhavam da porta e da janela naquele clima intimista de baixa iluminação. Quando já nos preparávamos para sair da sala, a energia voltou e pudemos ver um pouco mais e tirar fotos com uma cópia do livro Casa Encantada se juntando ao acervo. 

Antes de começar a apresentação, ganhamos uma cópia do livro “Me Enamoré del Fuego”, do Editorial Memoria Negra, com textos de um velho amigo que testemunhou as revoltas das ruas chilenas em 2019 e que veio a falecer no início do ano. Um presente especial saído direto do acervo do Archivo La Revuelta. A apresentação foi seguida de um debate intenso sobre as diferentes formas de ocupar e organizar em distintas comunidades. Além de nós do Brasil, havia um público majoritariamente chileno, mas também pessoas da Colômbia, México, Argentina e da Espanha. Foi uma oportunidade também de agradecer às pessoas de diferentes países que ajudaram na tradução e na edição do livro Casa Encantada, que se juntavam ali pela primeira vez, incluindo camaradas de Santiago e Valparaíso que estiveram na Kasa em diferentes momentos no último ano. Importante sempre lembrar que sem essa ajuda internacionalista, nada disso estaria acontecendo. 

No dia seguinte, encontramos nossa amiga de Valparaiso que estava na capital chilena para nos guiar por uma visita à USACH, a universidade pública onde o músico Victor Jara trabalhou e foi detido antes de ser levado para ficar preso no Estádio Nacional do Chile, ser torturado e morto. A universidade tem um monumento em homenagem ao músico, símbolo da resistência e da perseguição nos anos de ditadura. O monumento fica em frente ao prédio da reitoria, que foi alvejado pelos tanques do exército quando invadiram e ocuparam o campus no dia do golpe, 11 de setembro de 1973. Há também um memorial com nome de estudantes, professoras e funcionários da universidade que foram presos e mortos. A portaria, segundo conta nossa amiga ao passarmos pelas vias de entrada, é ponto de concentração de algumas manifestações que muitas vezes contam com manifestantes atirando projéteis e molotovs na polícia do lado de dentro do portão. Normalmente a ŧropa não pode entrar no campus, mas quando o faz, há correria e confrontos pelas vielas entre os edifícios. 

Mais uma vez, tomamos um tempo para ler placas, memoriais e grafites que tomam todo o espaço com a memória das lutas de ontem e de hoje. Saímos do outro lado do campus e passeamos pela Comuna Estação Central — em Santiago, comunas são regionais compostas por vários bairros. Por ali, vimos prédios populares construídos pela “Unidade Popular”, a aliança partidária que elegeu Salvador Allende. Os conjuntos habitacionais ali abrigavam classe trabalhadora de baixa renda e contava com muitas pontes que interligavam os prédios, algumas passando por cima de ruas e avenidas. Muitos dos prédios e dessas pontes foram também bombardeadas pelos tanques durante o golpe, pudemos passar e subir em algumas de suas ruínas, enquanto observávamos os ainda abundantes murais e grafites políticos que denunciam a repressão, a ditadura, a democracia capitalista e sua polícia, homenagem presos e mártires das lutas anticapitalistas.

Durante nossa estadia na cidade, ouvíamos falar de escolas ocupadas por secundaristas no centro, com confrontos diários com a polícia. Víamos posters, chamados para luta, recebíamos notícias dessas ações enquanto caminhávamos. A sensação é de que algo está sempre acontecendo. Comemos sopaipillas — a comida de rua vegana mais barata e de sustância da região — e despedimos de nossa amiga para rumar para nossa segunda atividade na cidade. 

Caminhávamos com mochilas e uma maleta cheia de livros rumo ao nosso segundo evento da turnê. Quando entramos no metrô, que nem estava tão cheio, um empurra-empurra na porta, nos prensando entre gente querendo sair e entrar, chamou a atenção. Em poucos segundos percebemos o que realmente aconteceu ali. O celular de um de nós foi furtado no meio desses empurrões forjados. As pessoas tentando sair e entrar ao mesmo tempo, acabaram todas saindo depois de conseguir o que queriam. Os “metrochorros”, pessoas que roubam nos metrôs, segundo nossos amigos locais, já deviam estar longe quando nos demos conta do que aconteceu.  Buscamos um segurança da estação de metrô para saber o que poderíamos fazer, e o guarda nos disse que nada poderia ser feito, que os ladrões já não estariam mais nas estações, que esse tipo de furto era algo comum, provando que a segurança do metrô é exclusiva para evitar danos à propriedade material da estação, e não traz segurança para os usuários deste serviço de transporte. Após um bom tempo de revolta pensando no que fazer para evitar maiores prejuízos com vazamentos de dados, contas de banco e de e-mails, tivemos que focar em chegar para nosso compromisso na Biblioteca Autónoma Lain Diez, no bairro La Bandera, Comuna San Ramón. 

A Biblioteca Autónoma Laín Díez é um projeto abrigado desde 2023 dentro de um centro social chamado La Casita Libre Comunitaria La Bandera, que funciona desde 2013 em um imóvel amplo, cedido pela municipalidade por um contrato de comodato. Na abertura e no encerramento do evento, informaram que as autoridades estão tentando sabotar a renovação do contrato, portanto precisam de mobilização e solidariedade para não perder o espaço, que é tão importante para a vizinhança, abrigando também a Escuela Comunitaria La Bandera, um projeto de educação comunitária com uma perspectiva feminista, ecológica e antirracista. 

Nosso debate de lançamento foi precedido pela fala de um compa militante do Movimento Solidário Vida Digna (MSVD) e também pelo autor do livro “Contra el Estado, los propietarios y la propiedad. Una historia de las Ligas de Arrendatarios en Valparaíso 1914-1925”, Felipe Mardones. Ambas as falas foram muito esclarecedoras para que pudéssemos entender o contexto da luta por moradia no território. Nos foi apresentado, como em Santiago e todo o Chile, a cidade é apenas mais um palco para acumulação de capital e, para isso, é necessário eliminar as noções de comunidade e individualizar o acesso e limitando direitos à moradia, serviços e dignidade. As semelhanças com os processos de concentração de terra, acesso à moradia transformada em mercadoria, direito à cidade e atuais desafios como a gentrificação e a repressão, conflitos com as autoridades e o tráfico de drogas são muito semelhantes ao que enfrentamos no Brasil. 

O que já acontece ou já aconteceu em um contexto, pode ser facilmente se passar no outro, como por exemplo a infame “Lei Anti Tomas” que está em vigor desde 2023 no Chile e tem como objetivo impedir, despejar e eliminar a ocupação de espaços vazios. Sejam ocupações urbanas feitas por movimentos sociais, ou as ocupações espontâneas que, como no Brasil, são o que compõem a maior parte das moradias e expansão dos bairros populares, e agora está se tornando um crime a ser punido com prisão. Mais uma clara posição do governo Boric de proteger os proprietários, a gentrificação e especulação, e criminalizar a pobreza. Algo muito similar ao que parlamentares brasileiros tentam transformar em lei para criminalizar ocupações e permitir que a polícia cumpra despejos de forma autônoma, sem autorização do Judiciário.

O debate foi animado e pudemos aprender muito sobre o contexto das lutas por moradia em Santiago. Mas foi no passeio que fizemos pela vizinhança ao final do lançamento que pudemos testemunhar as impressionantes conquistas do Movimento Solidário Vida Digna. Seguimos pelas ruas do bairro La Bandera quando nosso companheiro guiando o passeio foi nos mostrar um prédio dizendo “e isso é o que temos agora aqui”, mostrando um edifício residencial aparentemente novo, com a arquitetura quadrada, moderninha, típica dos “studios” que estão brotando em toda capital brasileira. E logo respondemos “ah, a gentrificação!”. “Não, esse é o prédio que construímos para as famílias do movimento”, respondeu nos convidando para entrar na Comunidad Organizada La Bandera (COLB).

Ficamos impressionados com aquele edifício de 4 pisos que atravessa o quarteirão e abriga 80 famílias organizadas pelo MSVD. Ele foi construído após a pressão popular fomentada pelo movimento forçar a prefeitura ceder o terreno e financiar as obras. As famílias precisaram pagar apenas o equivalente a mil dólares por moradia. Entramos e fomos caminhando pelos pátios, por todos os andares e pelos labirínticos corredores. Por dentro dá pra ver que não é, de fato, um prédio hipster paulistano, mas sim uma edificação simples mas bem feita, planejada e executada de acordo com o que definia as famílias em assembleias gerais. Nos contaram que as crianças também tinham sua própria assembleia e pressionaram para que o pátio logo junto da entrada tivesse uma quadra e rampa de skate, e não uma horta, como queriam os adultos. A horta teve que encontrar outro espaço mais ao fundo para florescer. 

Em cada andar havia uma foto dos processos de luta que culminaram na conquista da moradia digna, como as manifestações de rua, ocupações de prédios públicos ligados às políticas de habitação, assembleias e o processo de construção do prédio em si. Além de acompanhar as obras para evitar que a empreiteira terceirizada fizesse uma obra apressada e mal feita, as famílias e membros do movimento buscavam conversar e incentivar os trabalhadores da construção a se sindicalizar e exigir melhores condições de trabalho. 

O MSVD é um movimento ligado à FAS, Federación Anarquista Santiago. O curioso é que nosso companheiro explicou que, diferente de outras organizações de massa que conhecemos e compõem movimentos anarquistas especifistas, o MSVD prefere não se aliar a outros movimentos que não tem uma linha estritamente anarquista, pois “atrapalha e desvirtua” a luta. Ao que parece, estão conseguindo fazer isso com um grande sucesso, como não vimos em movimentos libertários em nenhuma outra cidade ou país, especialmente no sul global. 

Prédio residencial do movimento Comunidad Organizada La Bandera (COLB).

Há também no bairro a Asamblea de Mujeres La Bandera, um centro de apoio feminista para mulheres se organizarem e responderem a situações de vulnerabilidade e violência. O grupo promove oficinas, terapias, feiras escolinha infantil e articula a luta mulheres na região. 

A luta antipatriarcal se reflete em várias políticas de apoio dentro da ocupação do MSVD. Quando há uma situação de violência doméstica contra mulheres e o homem é afastado ou expulso do prédio, em alguns casos a mulher fica só e sem uma fonte de renda. A comunidade se organiza para que ela possa trabalhar em alguma atividade já existente no prédio e ser remunerada por isso, seja cuidando do jardim, portaria, limpeza.

Seguimos caminhando pelo bairro à noite, visitamos a quadra onde acontecem as partidas do Clube Desportivo também tocado pelo movimento, para incentivar o esporte com jovens e a comunidade. O espaço é construído pelo governo da municipalidade, mas cuidado e organizado pelo movimento juntamente com a vizinhança. 

A realidade é muito mais complexa do que esse relato dá conta, mas é inspirador ver uma comunidade tão grande organizada em torno de valores e práticas concretas para superar as mazelas do capitalismo, do patriarcado, do tráfico de drogas e do crime organizado. Foi uma ótima maneira de encerrar nossas atividades em Santiago, conhecendo a potência das suas organizações de bairro, das quais não temos tanta notícia por aqui. Lutas reais por moradia, contra o patriarcado, tocadas por comunidades, mulheres, jovens, famílias, movimentos e coletivos, todos alinhados em uma luta radical contra o Estado e o Capital. Se os movimentos no território dominado pelo estado chileno já nos inspira pelas imagens de confronto aberto com a repressão, essas imagens do que são capazes de construir e projetar no mundo são ainda mais inspiradoras e trazem mais energia para quem busca também construir um mundo novo..

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Valparaiso: ver o mar antes de cruzar os Andes

Deixamos Santiago cedo no dia 3, domingo, para tomar um ônibus para Valparaiso, no litoral chileno. Caminhamos mais uma vez com mochilas e malas cheias de papel, rumo ao metrô e tento nossa última olhada na cordilheira antes de ir sentido oceano Pacífico. Na estação, nos encontramos com um casal de camaradas que conhecemos quando visitaram BH e apresentaram sua atuação com o Sindicato de Oficios Varios de Valparaiso, ligado à federação Solidaridad Obrera – AIT. Eles nos esperavam com sopapillas e donuts veganos deliciosos para adoçar e dar energia para a viagem. 

Chegando em Valpo, fomos direto para uma doceria e lanchonete chamada Espacio Social Vegano Violeta. O pessoal que trabalha lá foi gente boa o bastante pra deixar a gente abrigar nossas bagagens lá para caminhar um pouco pela cidade. Valparaíso é uma cidade portuária com uma geografia e uma arquitetura muito particulares. Uma mistura de tudo de mais maluco e belo que vemos em cidades como Salvador ou Rio de Janeiro, misturando heranças coloniais, gambiarras, ruas sinuosas, muita arte, história e cultural em cada esquina. A parte baixa, perto do mar é totalmente plana, mas caminhando poucos quarteirões no sentido do continente já deparamos com ladeiras absurdamente íngremes e ruas sinuosas com curvas fechadas, escadarias que ligam uma rua à outra atravessando prédios e quarteirões inteiros. A impressão é que somente passando muito tempo lá seria possível caminhar sem se perder em 5 minutos.

Deixamos o Violeta e subimos sentido Casa de Pólvora y Ex Cárcel Pública de Valparaíso, que fica ao lado de um gigantesco cemitério da cidade. A antiga prisão funcionou de 1843 a 1999, hoje é patrimônio histórico e abriga o Parque Cultural de Valparaíso, e galerias em um grande espaço aberto com paredes e pisos removidos. No entorno há um parque e um mirante de onde é possível ver a zona portuária e grande parte de Valparaíso. Há também uma horta comunitária e uma cozinha coletiva em um espaço relativamente amplo e ocupado dentro da edificação, chamada Escuela Nutre con Amor, oferecendo refeições, oficinas e cursos. Segundo as participantes que nos receberam, o espaço segue ocupado ali há mais de 30 anos resistindo a várias tentativas de despejo, sempre apoiada pela vizinhança. 

Deixamos uma cópia do livro Casa Encantada com elas, apreciamos a vista e voltamos para fazer um grande lanche/almoço no espaço Violeta e seguir para o centro social anarquista Flora, onde seria nossa apresentação naquele domingo. Nos juntamos com mais amigos de Santiago e fomos caminhando para o local do evento e, ao cruzar uma praça logo na esquina anterior, percebemos um grupo de Carabineros vestidos com roupas anti-distúrbio mudando seu trajeto para cruzar com o nosso. Tarde demais: não dava para mudar o caminho ou dar meia volta sem chamar ainda mais atenção. Prontamente fomos parados e interrogados mais uma vez sobre quem éramos, onde iríamos, o que estávamos fazendo. Mais uma vez tomaram nossos passaportes para tirar fotos. Provavelmente uma tentativa de mapear e cruzar informações sobre quem eram as pessoas do Brasil fazendo debates sobre ocupações e movimentos anticapitalistas pelo Chile. 

Espaço Flora

Passado o estresse, aproveitamos para deixar nossas coisas no espaço Flora e conhecer mais a vizinhança enquanto a programação do dia já estava começando com oficinas de autodefesa. Tomamos o elevador panorâmico, percorremos quarteirões com mansões incríveis do século XVIII e XIX, dos antigos europeus magnatas do comércio portuário ainda conservadas. Passamos por vários mirantes, um com uma vista mais impressionante que o outro. Achamos por acidente uma oficina e galeria chamada Fabrika quando paramos para tirar fotos de um dos grafites mais incríveis, tomando toda a fachada de um prédio com centenas de cenas de lutas sociais da cidade. Passamos em frente a antiga sede do jornal conservador El Mercurio. A cada esquina tropeçamos tanta em arte e história pensando quantos dias ou semanas seria necessário para começar a sentir que conhecemos esse lugar tudo que existe de interessante nele. 

Flora é uma salinha alugada e gerida por coletivos anarquistas no Barrio Puerto, onde acontecem assembleias abertas, ações de apoio mútuo e antiprisional, grupos de leitura e de saúde. O evento que nos recebia se chamava “Flora abierto: La lucha por la vivienda es lucha por la vida”. Antes de nossa fala, uma companheira fez uma ampla apresentação da situação de presos e presas anarquistas no Chile e outros países, ressaltando a importância de falar da situação e dar também boas notícias sobre as pessoas no cárcere, como forma de manter a motivação e a solidariedade. O contexto é realmente muito diferente do braisileiro: anarquistas estão na prisão sob acusações de terrorismo e a criminalização do movimento é intensa. Mas também é a resistência, como a dos “Presxs del 6 julio”, o caso em que 14 militantes foram presos em casa por porte de armas como fuzis e pistolas. A sala estava repleta de gente de diferentes centros sociais e ocupas da cidade. Mais de 30 com certeza, que pareciam muito mais na sala estreita e comprida. Foi um dos debates mais interessantes com perguntas e trocas feitas dentro de um contexto de luta por moradia com pessoas envolvidas nisso por anos. 

Depois do evento, fomos conhecer outra ocupação chamada Katarcis e tivemos a sorte de achar um dos últimos ônibus pois a caminhada seria de mais meia hora e nossos compas tinham horário. O ônibus tinha uma decoração extremamente personalizada, raggae em alto volume e um motorista pisando fundo. Chegando lá, vimos um prédio gigantesco onde fica a La Biblioteca Luisa Toledo, um espaço de pesquisa, acervo de todo tipo de material impresso sobre anarquismo, luta indígena, feminismo, libertação animal e afins. O edifício tem uma história curiosa pois era uma antiga unidade da universidade do Partido Comunista chileno, a Universidad de Arte y Ciencias Sociales ou apenas Universidad ARCIS, fundada em 1982 – por isso a grafia Kat + arcis.

O espaço foi ocupado em 2019 poucos meses antes do Estallido Social que varreu o país com protestos contra custos de passagem que logo escalaram. Assim, o espaço virou ponto de apoio para uma cozinha montada na praça para alimentar manifestantes e acampamentos permanentes no local. Atualmente o espaço não serve de moradia e é uma a última ocupação do centro de Valparaíso. Acontecem ali as mais diversas atividades, como oficinas permanentes  de dança organizadas por senhoras do bairro, ateliê de serigrafia, estúdio de tatuagem, academia de boxe e outras artes marciais, cinema, espaço de show. A sala onde acontecem as danças conta com um espelho gigante que veio de outra ocupação desalojada e em um dia recebe atividade de dança para a terceira idade, no outro aulas de tango ou funk brasileiro. Há também regularmente grupos de cuidado e saúde mental, medicina chinesa e massagem.

Há também, é claro, um grande espaço para shows e sala de cinema, além de uma cozinha coletiva equipada ao lado de um grande pátio central. Mais um grande exemplo de um equipamento que o Estado deixa abandonado sendo transformado em infraestrutura aberta à comunidade para oferecer serviços que o Estado também não fornece. O telhado é o maior problema, com muitas infiltrações que comprometem o uso de algumas partes e demandam grande reparos – um drama universal das ocupações!

Ouvimos muitas histórias desses 6 anos de atividade, do cerco e ataques da polícia durante os levantes de 2019, quando bloqueios tomaram a avenida em frente à okpupa. Manifestantes chegavam com pequenos tratores removendo os paralelepípedos enormes da calça para fazer barricadas difíceis de mover. E em seguida queimaram o trator sobre elas. E a polícia passava atirando água e projéteis dentro das janelas do prédio. 

De lá seguimos finalmente a ocupação Centro Comunitario Ocupado Hormiguero, onde passamos a noite. O Horimguero foi ocupado em 2012 no bairro Playa Ancha, parte alta da cidade. O casarão fica conectado a uma praça e toda essa área foi comprada pelo Walmart para ser demolido e transformado em uma grande loja e estacionamento da sua versão chilena, chamada Lider. Nem a vizinhança nem a comunidade anarquista local queria perder a praça e ver tudo isso dando lugar a mais trânsito caótico e privatização do espaço. Então o espaço é mais um exemplo de ocupação de moradia e centro social amplamente apoiado pela vizinhança que também faz uso do espaço e sua programação. No casarão acontecem festas, feiras, bingo, bailes de todo tipo de música e várias atividades infantis, tudo bolado junto com a vizinhança.

Apenas 3 semanas após nossa visita, no dia 21 de agosto, a Hormiguero amanheceu com a tropa de choque batendo na porta para um desalojo através de um processo movido pelo Walmart. Rapidamente a vizinhança foi acionada e toda a comunidade anarquista e dos movimentos de ocupação se juntaram para impedir o desalojo, fechado as entradas, subindo no telhado e mobilizando a pressão popoular com chamados de solidariedade. (Leia o comunicado sobre o a resistência ao despejo em português aqui.) 

Um ex-morador que compareceu ao evento nos deu carona até a okupa e nos levou para ver um dos mirantes do bairro, uma pracinha com um parapeito de onde é possível ter uma vista panorâmica da parte baixa e boa parte da costa. Voltamos para jantar com nossos camaradas e aprender como tomar banho com um aquecedor a gás estilo Mad Max feito pelo pai de alguma campa, e nos cobrir para abrigar do frio com a ajuda de um morador canino que já nos esperava nas camas recém feitas. 

Jantamos conversando sobre a turnê, sobre a história de lutas e ocupações da cidade, de outros contextos onde cada moradora vinha, luta antiprisional, trocamos receitas e livros. Antes do amanhecer nosso amigo deu mais uma carona até a rodoviária antes do amanhecer. Descemos as ruas sinuosas enquanto o sol nascia em Valparaíso com cores intensas, entre rosa e alaranjado. Foi uma vista incrível antes de encarar nossa jornada rumo à tão esperada travessia do Chile para a Argentina através da Cordilheira dos Andes.

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