2026 nem bem começou e, como de praxe, vem um novo aumento da passagem de ônibus. Aproveitando o momento em que grande parte das pessoas estão viajando ou ainda de ressaca das festas de fim de ano, e que os movimentos sociais estão desmobilizados, as municipalidades em quase todo o Brasil costumeiramente usam o primeiro dia do ano para aumentar as tarifas dos transportes públicos. Mesmo depois de implementar a tarifa zero aos domingos e feriados no final de dezembro e tirar R$ 2 MILHÕES de reais da saúde para repassar esse valor às empresas de ônibus (leia-se máfia do transporte), Belo Horizonte inicia o ano com a passagem a R$ 6,25. Um aumento de 60 centavos em relação aos R$ 5,75 do ano passado.
Frente à isso, nesta última sexta-feira (09/01/2026) foi realizado um protesto na cidade contra o aumento das passagens na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) organizado pela Frente Popular Pelo Transporte Coletivo, uma frente de várias organizações de esquerda. Apesar de ser uma pauta que atinge a grande maioria da população da RMBH, o protesto estava muito vazio! Havia somente os já conhecidos militantes de movimentos, partidos e que, em sua grande maioria, eram estudantes universitários. Havia alí, no máximo, 100 pessoas. Toda aquela mobilização que vimos no dia de votação derrotada da Tarifa Zero na Câmara Municipal de Belo Horizonte não apareceu. Todos integrantes da cena cultural de BH que fizeram campanha e se manifestaram a favor da Tarifa Zero nem sequer fizeram uma publicação em suas redes sociais sobre o aumento da passagem. Todos os vereadorxs e deputadxs presentes nesta mobilização da Tarifa Zero, em uma campanha completamente institucional, no momento em que mais um aumento da passagem em Belo Horizonte pede ações de rua desaparecem. Nesta última sexta-feira, tivemos apenas as mesmas caras conhecidas da militância Belorizontina em uma das manifestações mais vazias, sem alma e estéreis que já fomos na vida!
Por conta disso, sentimos a necessidade de falar, por meio desse texto, sobre alguns problemas da esquerda institucionalizada, especialmente, em Belo Horizonte. Mas temos certeza de que esse texto servirá para a grande maioria das cidades do Brasil, tendo em vista que a crise dos movimentos sociais e da esquerda é a mesma em todo o território brasileiro.
A PAZ TERRÍVEL DE BELO HORIZONTE
Que o mineiro é tranquilo e evita conflitos ao máximo não é novidade. Mas em Belo Horizonte, estas características são levadas também ao campo político. Nos reunimos com todas as organizações de esquerda possíveis, deliberamos onde, quando e como serão os atos e SEMPRE parece que a busca é evitar qualquer tipo de conflito.
Quando se vai organizar algum ato na cidade parece que esquete de seriados pastelões da Netflix em que cada episódio muda-se o vilão (a pauta) mas a forma como os personagens chegam na resolução e como a história se desenrola é a mesma, não sei se por falta de criatividade ou domesticação. Primeiro, definem de onde o ato vai sair (SEMPRE Praça 7, Praça Raul Soares, Praça da Estação ou Praça da Liberdade), depois arrumam seus carros de som que NADA ajudam qualquer manifestação servindo somente como palanque para algumas figuras conhecidas na política da cidade e para SILENCIAR a multidão (ou 100 pessoas como no último ato) que vem atrás do carro de som. Muitas das vezes militantes e líderes partidários acham ruim que algum grupo continue tocando e cantando quando alguém fala ao microfone (como em uma procissão cristã). Depois desses dois elementos vem o 3º e mais importante deles: a definição da rota. SEMPRE AS MESMAS!! Nada se altera de fato na cidade, a polícia já está tão acostumada a escoltar atos com o mesmo trajeto em Belo Horizonte que já deve fazer parte da programação da BHTRANS os desvios de rota que acontecem quando uma manifestação acontece (assim como em um jogo do Galo ou do Cruzeiro).
Já nem me lembro mais qual foi a última vez que fechamos uma via importante da cidade para reivindicar algo. Já nem me lembro mais qual foi a última vez que, após uma tentativa de repressão policial, um bloco auto organizado se comprometeu a realizar a autodefesa do ato. Já nem me lembro mais quando a revolta de fato se materializou nas ruas da metrópole das montanhas. Tudo aqui é calmo demais, todos aqui se conformam demais e se mantém em ciclo de repetição Lacaniano de protestos que não levam nada a lugar nenhum. Qual foi a última vitória política da esquerda belorizontina? Qual foi a última vez que a elite dessa cidade sentiu medo, se sentiu ameaçada e desrespeitada?
Definiu-se alguns espaços de protestos alguns anos atrás nesta cidade e os militantes disciplinados se domesticaram. Todos realizam o seu protesto, com os mesmos cânticos, com as mesmas figuras discursando no carro de som, nos mesmos trajetos escoltados pela polícia e acham que estão realizando algum tipo de manifestação que dialogue com a população ou que vá fazer com que ela demonstre sua indignação junto à eles. No protestódromo, a única coisa permitida é o desfile, não há espaço para a revolta. Assim, reina uma paz terrível em Belo Horizonte.
OS PARTIDOS DITOS DE ESQUERDA RADICAL MORRERAM
Em 1989 a queda do muro de Berlim decretou o fim da URSS e com ela veio também o que alguns chamaram de “fim da história”. Mas poucos anos depois, em 1994, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) provou o contrário: em 1989 não havia tido o fim da história, mas sim o fim de uma idéia de revolução, rechaçando algumas formas da velha política e dos velhos partidos, e instaurando uma “outra política” em que o povo mande e os governos obedeçam.
Pois bem, parece que o imaginário político brasileiro insiste nas idéias ultrapassadas da organização-partido, do tarefismo militante e da forma de fazer política e se comunicar com as pessoas que não estão por dentro dos espaços de militância. Isso sem falar no imaginário extremamente empobrecido do que é uma revolução e de como pode ser um processo revolucionário. Uma forma de organização que caduca, pelo menos, há 90 anos!!
Alguns partidos insistem em ignorar TUDO o que aconteceu no século passado e todos os grandes erros, massacres, perseguições e assassinato de revoluções que aconteceram após a derrubada dos soviets e dos companheiros de Kronstadt pelos bolcheviques. Enaltecem acontecimento e fatos históricos deturpados, isso quando não defendem abertamente o apoio à morte de companheiros que se organizam de outras formas (anarquistas por exemplo). Para além de uma certa “cultura” pseudo bolchevique-tupiniquim amplamente difundida por esses partidos, a forma autoritária em que esses partidos organizam sua militância e recrutam jovens sonhadores e revoltosos acabar minando uma potencial formação de uma geração nas lutas. Os jovens militantes não podem sequer tocar um instrumento, ou gritar algo sem que um líder do partido aprove ou puxe o canto e o batuque. Sua formação acontece de forma totalmente alienada, onde eles comparecem apenas nos eventos convocados pelo partido e quando convocados pelo partido. Seguem a “agenda do partido” sem nem saber o que isso significa, quais suas implicações e quais os objetivos reais do partido com ela. E se, por alguma força da inconformidade, se destacarem para pedir alguma ação ou envolvimento em alguma causa que o partido não considera relevante ou até mesmo considere arriscado demais, esse militante é boicotado dentro das estruturas de poder (extremamente hierárquicas) do partido.
Pois, é uma grande ironia alguns “influencers da revolução” terem mais de alguns milhares de seguidores na internet e os atos referente a questões básicas da sobrevivência urbana serem esvaziados. Os “influencers da revolução” são como os partidos nos quais eles usam de palanque: leões da revolução no discurso, falando em revolução armada, luta campesina e antifascismo, mas uns gatinhos na rua e na realidade. Eu pergunto a vocês, quantos desses influencers vocês viram em manifestações, propondo ações diretas para reivindicar algo em prol da população de seus bairros, vilas ou cidades?
Assim, como os “influencers da revolução”, esses partidos são revolucionários apenas na aparência, com grandes discursos vazios e propaganda de resistência e ação direta que um dia fizeram no passado. Hoje, a ação nas reuniões para organizar uma manifestação são sempre as mesmas: “não é a hora disso”, “não temos forças suficientes para fazer uma ação mais radical”, “muitas pessoas têm medo”, “mas o que a mídia irá falar sobre nós”. Isso quando é combinado algo e na hora H alguns militantes “dão pra trás” na ação.
Desde 1989, a ideia de revolução desses partidos está morta e eles tentam levar junto com eles o imaginário de toda a geração Z que se propõe a entrar na luta por meio de suas organizações e com a manipulação desses corações rebeldes, tentam enterrar também qualquer ação direta possível para enfrentar a distopia do capitalismo tardio cybertecnológico.
POR UMA FRENTE AUTÔNOMA RADICAL E COMBATIVA
Diante de tudo isso, achamos importante construirmos novas formas de manifestação e de articulação e alimentarmos outras culturas de atos, estimulando formas mais ousadas, envolvedoras e criativas.
A diversidade de táticas é importante em todo movimento e cena rebelde. Mas o que tem prevalecido na cena de Belo Horizonte são manifestações estéreis, completamente inofensivas, monótonas e padronizadas, e a não experimentação de táticas já experimentadas na cidade, como bloqueios, ocupações, barricadas, intervenções e tantas outras.
Experiências realizadas durante as manifestações que invadiram o shopping cidade na luta contra a jornada 6×1, ou das ações das realizadas pela Frente Antifa, e tantas outras já realizadas em outros tempos na cidade, nos demonstraram a potência desse tipo de olhar.
É importante questionar o centralismo e a monotonia da cultura do carro de som, que impera nas manifestações belorizontinas, que desempodera a maior parte das pessoas presentes. É necessário fortalecer uma cultura de envolvimento direto, mais criativo, seja através das baterias e dos grupos de percussão acompanhadas por gritos e cantos em coro. Algo que demonstre e convoque mais a força do coletivo, que convoque cada pessoa contribuir com a energia do ato, ao invés de somente a voz de lideranças individuais de partidos e grupos. Algo que seja diferente das monótonas caminhadas acompanhadas por pessoas silenciosas atrás de um carro de som, de onde lideranças solitárias berram nos ouvidos das pessoas e onde as baterias e os gritos de manifestações são realizados somente em curtos espaços de tempo entre as falas no carro de som.
É importante estimularmos a criatividade, o envolvimento e a ousadia no processo de organização dos atos, de maneira a pensarmos outras possibilidades e formatos. A ousadia que os movimentos demonstraram historicamente e que parece ter desaparecido do cenário rebelde da cidade, mas é importante que seja retomado.
E para além disso tudo, é importante que os movimentos de olhar mais radicalizado, criativos e ousadas busquem criar novas articulações e experimentos, de forma a participar dos atos ou articulando outras ações paralelas mais ousadas.
Por conta disso, chamamos aqui todxs que, assim como nós, estão revoltadxs com as imposições do estado, aumento do custo de vida, aluguéis abusivos e a passividade absoluta no cotidiano massacrante do capitalismo tardio para um encontro no dia 29/01 (quinta-feira) na Kasa Invisível (Av. Bias Fortes, 1034). Para debatermos possibilidades e dar início à uma frente mais combativa e radical em Belo Horizonte.
POR UMA CIDADE REBELDE E PULSANTE!
POR DIVERSIDADE E OUSADIA!