Em janeiro, o editorial Pensamiento y Batalla, do então chamado Chile, lançou a coletânea“Resistencias, Autonomías y Luchas Sociales en el Brasil de Hoy”. O livro conta com 17 entrevistas com coletivos e movimentos radicais e anticapitalistas brasileiros realizadas no final de 2025. A obra tem também um prólogo e um epílogo escritos por camaradas do Brasil.
Além da Kasa, participaram Movimento Autogestionário-MOVAUT, Organização Socialista Libertária-OSL, União Anarquista Federalista-UAF, Organização Popular Terra Liberta, Grupão, Grupo Comunista Antípoda, Federação Anarquista Domingos Passos-FAD, Centro de Cultura Libertária da Amazônia-CCLA, Coletivo Anarquista Bandeira Negra-CABN, Organização Política Proletária-OPP, Biblioteca Terra Livre, Frente Anarquista da Periferia-FAP, Ocupação Esperança, Dona Maria Antifascista, Centro de Cultura Social Movimento-CCSM y Crítica Radical.
Nas palavras do coletivo PyB:
“Nossa intenção com este livro é dar conta do estado atual das forças dentro do ‘espaço radical’ brasileiro, levando em consideração a maior diversidade possível de correntes — anarquistas de diferentes tendências, marxistas autogeridos, autonomistas, comunistas de esquerda, etc. — mas também abrangendo a mais ampla área geográfica possível em um país que engloba mais da metade do território que compõe o Cone Sul da América do Sul. Este projeto internacionalista sobre as lutas sociais que ocorrem no Brasil a partir de uma perspectiva anticapitalista, em que os protagonistas falam em primeira pessoa, é complementado por outros materiais críticos que temos publicado recentemente em diversos formatos; desta forma, buscamos contribuir para o exercício da reflexão material e estratégica sobre a dinâmica do capital em sua atual fase de declínio catastrófico.”
Agradecemos ao convite do editorial PyB para participar de mais esse projeto. Membros do coletivo já visitaram a Kasa Invisível e compartilharam experiências, mas também foram responsáveis pela edição em espanhol do livro Casa Encantada – Um retrato da luta por moradia em Belo Horizonte e pela turnê de lançamento e debates sobre a luta por moradia em BH, que percorreu Chile, Argentina, Uruguai e o sul do Brasil em 2025.
Nos vemos en las calles!

ENTREVISTA COM KASA INVISÍVEL, POR PENSAMIENTO Y BATALLHA – 2025
“O Coletivo ‘Kasa Invisível’ nasceu em março de 2013 com a ocupação de um conjunto de três casas localizadas na região central de Belo Horizonte. Construído por um grupo heterogêneo, o Coletivo ‘Kasa Invisível’ surgiu da necessidade de moradia e do desejo de ocupar e restaurar um conjunto de prédios abandonados, transformando-os em espaços de convivência social, política e cultural, abertos a toda a comunidade. A gestão e a residência coletiva são compostas por trabalhadores, estudantes e desempregados. Alguns de seus membros já atuaram juntos em outras mobilizações pelo direito à cidade, seja em movimentos por transporte gratuito, moradia, ativismo cultural ou recuperação de espaços públicos no município. Outros também participaram e vivem em diferentes ocupações urbanas na periferia da cidade e em outros estados. Na Kasa Invisível, além de habitação e ação política e cultural, os membros e colaboradores também organizam cooperativas autogeridas para autonomia econômica.”
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1 – 2013 foi um ano muito importante para a eclosão de mobilizações e revoltas massivas em todo o Brasil desencadeadas pelo problema do transporte público. Em que medida esse contexto de luta se relaciona com a ocupação da Kasa Invisível?
O ano de 2013 foi um momento de transformação na política brasileira, quando o anarquismo e termos como “black blocs” passaram a ser parte do imaginário e do senso comum, presente nos jornais e nas conversas em família. Foi quando a política radical, da qual fazemos parte por décadas, furou a bolha e rompeu com o silêncio e a pacificação organizada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), que estava, no momento, em seu terceiro mandato na presidência do país, com Dilma Rousseff governando após seu sucessor Lula.
As manifestações contra o aumento das passagens de ônibus e metrô foram deflagradas pelo Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo em junho daquele ano, depois que protestos em Porto Alegre conseguiram barrar o aumento em fevereiro.
Desde a década de 1980 não houveram tantos protestos e greves (foram mais de 2 mil greves mobilizando cerca de 2 milhões de trabalhadoras e trabalhadores). Nos meses seguintes, 30 Câmaras Municipais foram ocupadas, e em Belo Horizonte não foi diferente, uma vez que protestos iniciais foram centrados contra a Copa das Confederações, um mega-evento de futebol feito pela FIFA.
A ocupação dos imóveis onde hoje está situada a Kasa Invisível surge nesse amplo contexto de luta social, como uma forma de manter a luta, os encontros, a troca de saberes e cumplicidades para além das barricadas. Seguir nutrindo e conspirando a revolta quando a fumaça se dissipa. Enquanto, ainda hoje, a esquerda institucional tenta culpar os levantes de 2013 como responsável pela ascensão fascista no Brasil, a Kasa Invisível é um dos vários frutos duradouros dessa luta que foi e é anticapitalista, incontrolável e contra a miséria que é viver no capitalismo, seja sob governos de direita ou progressistas.

2 – Se vocês se definem como um grupo “heterogêneo”, que referências teóricas e políticas ou experiências de luta vocês consideram significativas para a sua militância social?
Assim como outros movimentos autônomos, e aqui podemos citar o MPL, compartilhamos valores e práticas anárquicas, como a horizontalidade, tomadas de decisão que priorizam o consenso, antiautoritarismo e autonomia frente ao Estado e ao mercado. Mas não somos um espaço ou um coletivo pautado por uma ideologia única. Não é preciso se declarar anarquista para ser membro do coletivo, estamos mais interessados em ser um espaço agregador de práticas comuns e potencializar as lutas. Isso não quer dizer que questões teórico-práticas não nos perpassam e sejam motivos de discussões, mas acreditamos que não devem tomar a frente a outros modos associativos centrado num fazer comum e orientado à concretude das lutas.
3 – Como vocês se relacionam com as pessoas que moram no bairro onde está localizado o squat? Como você define seu trabalho “comunitário” em termos teóricos e práticos?
O coletivo da Kasa Invisível é herdeiro de várias movimentações anteriores na cidade (de ações de rua até infoshops), então vivenciamos experiências diversas de relação com o entorno dessas ações. Então podemos dizer que em muitos aspectos a experiência da Kasa Invisível nesses últimos anos é a mais bem sucedida de boa relação com a vizinhança.
O primeiro fornecimento de energia do espaço veio do Centro da Maturidade, que é vizinho do espaço e permitiu que conseguíssemos fazer nossas primeiras atividades. A relação com os vizinhos dos prédios também é muito boa, eles sempre nos apoiam, divulgam e fazem doações para o espaço. Acreditamos que isso é muito importante porque como sempre dizemos “os vizinhos são os primeiros a chamar a polícia quando uma ocupação acontece ou dá problema”. Além disso, temos uma relação muito próxima com as pessoas em situação de rua, que também constituem nossa vizinhança, a Kasa se propõe a fornecer doações através da nossa Loja Grátis e distribuir comida quando faz atividades na rua. Ao longo dos últimos anos diversas casas ocupadas surgiram no nosso entorno, ligada principalmente ao MLP (Movimento de Libertação Popular), um movimento de moradia, e temos uma excelente relação com eles onde apoiamos e somos apoiados. Por exemplo, a ocupação Vida Nova é uma grande parceira, possui uma cozinha comunitária e estamos sempre nos apoiando mutuamente.
Acreditamos que a criação dessa vizinhança, dessa comunidade porvir, é um dos aspectos mais centrais da Kasa Invisível. Primeiro porque é a base de um projeto local e que permite diversas outras ações e relações acontecerem. Acreditamos que tais encontros são parte essencial do projeto, o “se frequentar” é o que faz que as relações não sejam só o “da militância”, afastada e alienante.O que em muitas vertentes políticas acaba por fazer operar uma relação cindida entre os ideologicamente informados e os “comuns”. O que também reforça muitas vezes, relações de “caridade”. Coisas que seguramente queremos evitar.

4 – Quais cooperativas estão operando atualmente na Kasa Invisível? Em sua opinião, quais são os potenciais e os limites das cooperativas autogeridas no atual contexto econômico do Brasil?
Atualmente a única cooperativa operando é a 1000contra, espaço de produção e distribuição de material da Kasa e de outros coletivos. Havia anteriormente um bar em nosso espaço mas como temos visto o risco é de que cooperativas sejam apenas a fachada para empreendimentos comerciais que continuam explorando a mão de obra barata do trabalhador enquanto se utiliza de um verniz (e um vocabulário) libertário.
Acreditamos e apoiamos as formas cooperativadas e autogestionadas, no capitalismo contemporâneo, onde a pior coisa que ter um trabalho é de fato não ter nenhum, essa forma pode ser um dos meios possíveis para que trabalhadores se encontrem e produzam formas mais amenas de trabalho. Claro que tomado em separado as formas cooperativadas podem ser só mais uma forma dentre várias de continuar uma vida danificada, mas seu potencial associado a outras lutas e principalmente se orientadas a outras formas de vida e sociabilidade conservam um enorme potencial. A Kasa Invisível sente que essa é uma das questões que precisam ser mais discutidas e avançadas pelo coletivo. Principalmente quando pensamos em experiências dos nossos parceiros venezuelanos da CECOSESOLA, que sempre que vêm a Kasa Invisível compartilhar suas experiências nos brinda com uma história muito potente de luta.

5 – Que projetos ou espaços estão operando constantemente hoje na Kasa Invisível?
A Kasa é composta por projetos ou grupos de trabalho como a Biblioteca Invisível, que tem um acervo físico que pode ser consultado online e qualquer pessoa pode tomar livros emprestados. A Biblioteca também recebe lançamento, debates, grupos de estudo e mostras de cinema. Temos outro grupos de trabalho que pessoas de fora da Kasa participam como o GT Arquitetura, o GT Pagode, que toca samba e música popular brasileira e latina em geral em eventos da Kasa ou em ações nas ruas e outros lugares. Temos projetos de ocupação da rua e de praças com ações solidárias como o Natal Sem Compras, que é um evento de fim de ano onde organizamos uma atividade aberta em praças ou na calçada da nossa rua, com comida e roupas grátis, música, debates e outras atividades que não precisam de dinheiro para acontecer e servem para incluir, principalmente, a população em situação de rua. Organizamos festivais que usam a ocupação e também outros lugares, como a Feira do Livro Anarquista de BH, o festival Subvercine.
Além de tudo isso, recebemos propostas de eventos abertos ou fechados, reuniões, festas, cineclubes, leilões de arte independente e qualquer coisa que pessoas ou coletivos podem propor para usar o espaço de forma comunitária.
6 – Pode descrever mais detalhadamente como é o movimento de moradia em Belo Horizonte? Como vocês participam dele? Esse movimento específico se articula efetivamente com outras lutas e movimentos sociais?
O movimento de moradia em Belo Horizonte constitui-se como um dos mais fortes e organizados dentro das lutas. Belo Horizonte é considerada a primeira cidade planejada do Brasil e pouco tempo depois da sua inauguração já havia pessoas morando fora do seu perímetro planejado (a própria fundação da cidade é marcada pelo despejo de Maria do Arraial, uma mulher negra que vivia na região onde foi o Palácio do Governador). A questão fundiária está entranhada na história da cidade, não muito diferente de outras grandes cidades do país, já que o Brasil tem maiores índices de concentração de terra no mundo. Em Belo Horizonte os dados dizem que são mais de 10 mil pessoas vivendo em 80 ocupações de casas, prédios e territórios, como aponta o companheiro Baruq da Kasa Invisível em seu livro “Casa Encantada”. A partir dos anos 2010 há uma explosão de grandes ocupações de terra em Belo Horizonte e região metropolitana, essas ocupações ruro-urbanas são em sua maioria organizadas ou posteriormente apoiadas por movimentos sociais da cidade. Aqui talvez seja importante fazer uma pequena e rápida diferenciação, com todos os problemas que isso traz e sem nenhum juízo de valor, sobre as ocupações que geraram as favelas na cidade e essas ocupações urbanas. Ainda que externamente possam parecer parecidas, as favelas costumam ter um crescimento desordenado, as ocupações urbanas deste período aparecem em um momento onde o trabalho técnico de militantes, professores e especialistas colocaram a questão do planejamento urbano, com criação de bairros ordenados e divisão dos terrenos de maneira muito evidente. Durante 10 anos houve dezenas desse tipo de ocupação e algumas saíram muito vitoriosas, assegurando que os moradores tivessem a propriedade de suas casas, acesso a direitos básicos como água, luz, coleta de lixo e às vezes pavimentação e asfaltamento de suas ruas. O exemplo disso é a Ocupação Izidora, considerada o maior conflito fundiário no Brasil, com cerca de 30 habitantes, que conseguiu diversas vitórias para sua permanência (inclusive é um dos casos de sucesso de junção de diversos movimentos após junho de 2013 na cidade).
A Kasa Invisível se vê e faz parte desse movimento, assim como é reconhecida como um espaço importante para a luta. Possuímos uma ótima relação com o já citado MLP, fortalecendo e ajudando as ocupações do movimento. Assim como o MLB (Movimento de Luta nos Bairros Vilas e Favelas), participando da entrada e permanência de ocupações organizadas por ele. E também com o MOB (Movimento de Organização de Base), movimento de moradia ligado à OSL (Organização Socialismo Libertário), que apoia e constrói a ocupação Vila Fazendinha. Importante que diga que Junho de 2013 em Belo Horizonte permitiu que diversas organizações, com suas divergências ideológicas, táticas e estratégicas, tivessem uma relação mais próxima e que abrisse espaço para apoio e troca nas lutas.

7 – Como vocês caracterizariam a situação do movimento autônomo no Brasil atualmente? Quais vocês considera serem as prioridades mais urgentes a serem promovidas nesse espaço atualmente?
O movimento autônomo do Brasil sofreu uma brutal queda nos anos após Junho de 2013. Isso não ocorre apenas pelo refluxo das lutas mas pela intensa perseguição que diversos grupos e indivíduos passaram, o recrudescimento da repressão, das leis e também da difamação das formas autônomas de luta. Mesmo com a Dilma Rousseff do PT tendo ganho as eleições presidenciais de 2014 e sofrendo o impeachment em 2016, os protestos de Junho e consequentemente o movimento autônomo passaram a ser vistos como os responsáveis pela ascensão da extrema-direita no Brasil por conta de uma narrativa petista que se tornou “a oficial”, criminalizando a revolta popular e a ação política autônoma ou radical. Ainda assim ficou bastante claro como os movimentos autônomos e libertários não conseguiram deixar espaços, organizações e iniciativas mais sólidas no tempo, justamente quando muitas dessas práticas e linguagem se disseminaram tanto. Isso talvez possa soar apenas como um pessimismo estagnante mas demonstra como essa grande insurreição ainda continua reverberando e colocando questões para aqueles que querem lutar e se organizar para além da institucionalidade. Nesse aspecto sentimos que a consequência é uma reestruturação nesse campo, com uma busca por uma maior organização: seja ela formal e programática (como das organizações específistas e plataformistas como a OSL e FOB), assim como de estruturas e espaços que possam potencializar as lutas como a Teia dos Povos (uma articulação de povos camponeses, indígenas e quilombolas, anticapitalista e anticolonial, atuando no campo e na cidade em territórios liberados e autogestionados) e ocupações autônomas como Kasa Invisível, por exemplo.
Por agora, a prioridade é continuar se movimentando, se opondo ao fascismo e à extrema-direita, ao pacto lulista que imobiliza as ações dos descontentes, consolidação de organizações, espaços físicos e de encontros, não sectarismo (apoiar concretamente onde as lutas elas estão, desde a base). Por fim, trata-se de nos mantermos animados e mais preparados para a próxima insurreição, construindo, fortalecendo e ligando as lutas, os espaços de resistência, liberando territórios e recursos.
