Ocupação anticapitalista, autônoma e horizontal localizada em Belo Horizonte
Eleições e a Permanente Ameaça do Fascismo no Brasil – Posição do Coletivo Kasa Invisível Frente às Eleições 2026
Eleições e a Permanente Ameaça do Fascismo no Brasil – Posição do Coletivo Kasa Invisível Frente às Eleições 2026

Eleições e a Permanente Ameaça do Fascismo no Brasil – Posição do Coletivo Kasa Invisível Frente às Eleições 2026

A eleição presidencial de 2026 pode ser decisiva para o que conhecemos por “democracia” no Brasil. O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro pode abrir caminho para o que militantes, especialistas e grande parte da população entende como uma guinada autoritária caso o filho do ex-presidente golpista seja eleito.

Já teremos um tempo muito difícil pela frente mesmo com Lula no poder. Com Flávio na presidência, a República corre o risco de retornar ao pior dos tempos autoritários da Ditadura com o que há de mais novo do fascismo contemporâneo. Falamos isso sob o peso de uma ameaça grave de despejo de uma das nossas ocupações e em meio a uma ampla campanha por Despejo Zero em Belo Horizonte, quando várias ocupações estão em risco de despejo. 

Concordamos com esse diagnóstico possível e também com o fato de que com a predominância da extrema-direita no Congresso após essas eleições, os poderes legislativos e judiciário já estarão perigosamente alinhados para atacar a classe trabalhadora, desmantelar direitos garantidos, atacar os mais pobres, mulheres, a população negra, indígena e LGBTQIAPN+ , nas cidades e nos campos, jogando o controle cada vez mais sem limites nas mãos de um eventual governo bolsonarista. 

Não vamos pedir para ninguém votar, muito menos para que não votem. Somos um pequeno coletivo, sabemos do nosso tamanho e nossas limitações. Nossa comunidade e as pessoas atingidas por nossos canais de comunicação são pessoas de esquerda, algumas mais outras menos radicais e já tomaram suas decisões. Qualquer pedido no sentido de chamar para o voto ou abstenção seria inócuo. Também não temos intenção de disputar ou integrar a avalanche de posicionamentos eleitorais no mercado de ideias, ampliado pelo mundo digital e transformando a todos em um concorrente ou inimigo em potencial. 

Ação por Despejo Zero em 1 de outubro de 2026.

Como disseram os zapatistas, no México:

 “Se você já decidiu que não vai votar, nós não dizemos que está bem, nem dizemos que está mal. Só lhe dizemos que achamos que não é suficiente, que tem que se organizar. E claro, que se prepare, porque vão lhe colocar a culpa das misérias da esquerda partidária institucional.”

Portanto, respeitamos e apoiamos a decisão individual por focar, no momento, em votar e angariar votos para Lula. Mas reforçamos que não só será insuficiente se engajar nessa luta de última hora, como a busca desesperada por votos para uma vitória eleitoral é parte do problema que foi construído pela própria esquerda institucional, especialmente o Partido dos Trabalhadores no poder.

Nossos princípios são públicos e contam com tópicos como apartidarismo, crítica radical ao estado e ao capitalismo. No entanto, cerramos fileiras de luta com muitos partidos do campo democrático de esquerda, movimentos sociais e grupos que não compartilham uma crítica radical ao estado e aos partidos. Nos encontramos nas lutas e por elas construímos a possibilidade de uma vida melhor e um mundo mais justo. 

Bloco Antifa no ato contra Flávio Bolsonaro em 10 de outubro de 2026.

Estivemos recentemente nas ruas e nos atos denunciando Flávio Bolsonaro e o fascismo, como sempre estivemos, chamando e comparecendo em protestos, manifestações, bloqueios, abrindo caminho e apoiando novas ocupações, seja durante o governo Lula, seja no governo Jair Bolsonaro. Somos e seremos uma oposição popular e crítica, seja qual governo for eleito.

No entanto, é necessário também elaborar uma crítica externa e interna dos processos que nos trouxeram até aqui, nessas 3 semanas de mobilização para “virar voto” e vencer o bolsonarismo nas urnas. 

Vemos com preocupação o desespero que se instalou depois do primeiro turno das eleições presidenciais. Em falas públicas e debates no nosso espaço, falamos sobre como prevalecia um clima de calmaria com relação às eleições de 2026, se comparamos com as de 2018 e 2022. Parecia que o fascismo não era mais uma ameaça, que o governo Lula era favorito e imbatível. Mesmo com as análises de especialistas dizendo que o bolsonarismo cresce nas urnas de última hora, toda a sociedade e o próprio Partido dos Trabalhadores não pareciam preocupados. Demonstravam estar bastante confortáveis com a vantagem de apenas 2 pontos nas pesquisas. 

Quando falamos em princípios e do compromisso a eles, é para não nos perdemos na caminhada e principalmente porque acreditamos que as formas organizativas são capazes de elaborar questões de maneiras distintas e avançar nas lutas. Ainda que sempre fiéis ao que mais importa e fazendo uma leitura crítica das práticas, acreditamos estarmos abertos para mudar tanto os princípios quanto as práticas quando necessário. Porém, quando criticamos a forma-partido e a disputa por controle do Estado, estamos falando objetivamente de um meio e um fim de luta. Estamos afirmando sem rodeios que a ação direta é mais importante do que terceirizar nossa ação política, achando que governantes eleitos com dinheiro, publicidade e recursos que mudariam a vida de comunidades inteiras, vão representar nossos interesses. Apenas o povo salva o povo e apenas a luta muda a vida. Se não temos uma construção organizada e com propostas e princípios claros no cotidiano, estaremos sempre sofrendo com o desespero de última hora. 

Concordamos, portanto, com a Organização Socialista Libertária: 

“Quando afirmamos que as eleições são uma farsa, criticamos um sistema político que restringe a participação popular à escolha periódica de representantes, deslocando a capacidade de decisão das mãos da população para as instituições do Estado. A disputa eleitoral desmobiliza as classes oprimidas ao apresentar a representação parlamentar como alternativa à organização coletiva.”

Ficou claro nessas semanas de outubro que a confiança na “terceirização da ação política” em Lula e no PT, manteve as pessoas e movimentos sociais calados e tranquilos até a desvantagem no primeiro turno. E agora, vemos uma mobilização insana que se propõe até mesmo a emular o chamado “partido digital bolsonarista”, formando “exércitos” digitais para replicar conteúdo pré-fabricado. Não julgamos nenhuma das táticas de agora, mas não deixaremos de alertar para os riscos a que todos corremos em não nos organizar permanentemente e ficarmos a mercê do outro campo para agir. Basta lembrar que quando o presidente era Jair Bolsonaro, administrando uma pandemia de forma assassina, a mesma esquerda dizia que “não era hora de protestar” porque seria “um pretexto para o golpe”. E quando Lula foi eleito em 2022, também não era hora de jogar contra um governo de esquerda. Um povo que passa 4 anos anos ouvindo que não é hora de manifestar, fazer greve e pressionar um governo, agora só sabe ir para rua quando já é arriscado ser tarde demais para barrar o fascismo.

De forma semelhante, denunciamos a anemia da esquerda na última eleição para prefeito em BH, quando essa esquerda não se uniu em pautas claras, populares e combativas, ficando nãos apenas de fora do segundo turno, mas também sendo obrigada a pintar um fantasioso “Fuad Antifascista” para barrar o candidato bolsonarista. Hoje temos como prefeito, seu vice Álvaro Damião da União Brasil, candidato anti-povo, gentrificador, aliado declarado do estado de Israel e com propostas alinhadas à direita.

No nível federal, se o PT e a gestão Lula-Alckmin tivessem optado por governar para o povo, com pautas de esquerda e não de centro, estariam muito mais à frente e em vantagem eleitoral e dependeriam menos de emular o bolsonarismo nas redes e em pautas como a redução da maioridade penal. E não buscariam avançar em um mês com pautas que silenciou por 3 anos e meio, como fim da escala 6×1, tarifa zero nos transportes urbanos, combate à plataformização dos trabalho, bets e plataformas de apostas e o poder das Big Techs (que agora entram como aliados da extrema-direita e de Trump para eleger Flávio Bolsonaro em troca do acesso a minerais e mercados brasileiros). Além de não bancar pautas novas, o governo Lula também decidiu não enfrentar retrocessos e manter a Reforma Trabalhista da terceirização aprovada em 2017, a Reforma da Previdência de 2019, privatização da Eletrobrás e ainda manteve o Teto de Gastos com novo nome de Arcabouço Fiscal e paralisou reforma agrária e demarcação de terras indígenas.

Mesmo com tudo isso, o próprio Lula declarou publicamente que acreditava que iria vencer no primeiro turno. Um erro de cálculo grave para o maior político que o país já teve, o mais votado e o que mais participou de eleições presidenciais. Uma incapacidade de leitura do cenário político, onde a extrema-direita se organiza, pelo menos desde 2015, uma nova cultura política, que alinha novas gerações e os mais velhos em torno de mídias e “partidos” digitais, rompendo com as barreiras da mídia tradicional, ajudando a organizar também no mundo real, a vida e um senso de comunidade dentro das igrejas, escolas, batalhões e espaços de trabalho. 

Qualquer que seja o resultado das eleições neste domingo, está claro que a política institucional, o PT e mesmo Lula, são barreiras insuficientes para a extrema-direita e o fascismo miliciano brasileiro. Se Lula vencer, nada garante que a extrema-direita volte com ainda mais força em 2030, dessa vez sem nenhum nome de peso na esquerda e sem o Supremo Tribunal Federal, inocentemente creditado como uma das poucas barreiras ao autoritarismo.

Por isso, é necessário agora desejar o melhor e nos preparar para o pior. Mais do que “exércitos” digitais e declarações virtuais, precisamos estar nos organizando onde pisamos, sem nos desesperar. Raúl Zibechi nos lembra que, mesmo em meio à ditadura militar, “foram criadas as condições para o nascimento – apenas uma década depois – do Movimento Sem Terra, do Partido dos Trabalhadores e do centro sindical CUT.” Ou seja, até nos mais sombrios lixões da história, nascem flores de luta.

Zibechi continua: 

“Essa é a história de toda a América Latina. Tornamo-nos fortes nos tempos sombrios da repressão e do militarismo, crescemos e acumulamos forças que depois desperdiçamos no jogo institucional.(…) Desde a década de 1980, essa é a nossa realidade: apostamos tudo em eleições, reformas constitucionais, legislação que é uma letra morta e, enquanto isso, desarmamos nossos poderes que são a única garantia contra os opressores. ”

Bloco Antifa no ato contra Flávio Bolsonaro em 10 de outubro de 2026, denunciando a conciliação de classes petista.

Portanto, não abraçamos o discurso fatalista que condena tudo à falta de ação, ao exílio ou à depressão, caso Flávio seja eleito. Aceitar isso é trabalhar para o seu sucesso já dentro de nossos sentimentos e vontades. Todas as pessoas em vulnerabilidade social, nas periferias, ocupações, favelas, pessoas trans, negras, indígenas e mulheres de todas as partes, estarão em maior segurança se organizando coletivamente desde já. Não apenas saindo para votar quando a situação chegou a um grau máximo de emergência. Muito menos deixando o isolamento e a tristeza da derrota falarem mais alto. Numa outra crítica libertária, o grupo anarco-comunista The Polar Bl@st relembra que:

“Cada discussão sobre o voto estratégico desvia do trabalho real de construir alternativas. Cada segundo dedicado a defender partidos de esquerda normaliza a ideia de que a libertação flui de cima para baixo, do Parlamento, em vez de fluir de baixo para cima, da luta.”

Ou seja, nossa real defesa e agenda política vem do poder que temos em nossas mãos, de baixo para cima. Como sempre disseram nossos camaradas da Teia dos Povos em conversas e por escrito, o que temos em nosso controle não poderá ser tomado facilmente com uma nova eleição ou canetada. É preciso construir lutas, comunidades, coletivos, movimentos, espaços e territórios. 

Tudo o que temos somos nós mesmos e nossas alianças. Nossos líderes não vão nos salvar de dentro de palácios e gabinetes, por mais que eles caminhem a cada 4 anos pelas avenidas acenando para nós e vendendo esperança. Como disseram os estudantes do outro lado do oceano em revolta ao longo desse mesmo outubro, é preciso desejar e abri caminho para “o fim da era contemporânea”. Se a regra é, cada dia mais, um estado de exceção permanente, devemos nós, pessoas oprimidas e excluídas, construir nós mesmas um estado de exceção que poderemos habitar para além do Estado e do Capital. 

Vença quem vencer, estaremos nas ruas contra o fascismo e o capitalismo. Estarmos prontos e juntos, é tudo!

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